08 maio 2009

DOCUMENTO : DEI VERBUM!!!

Dei Vebum

CONCÍLIO VATICANO II DEI VERBUM, SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

A santa Igreja, expressando os votos de 2.344 (contra apenas seis) de seus mais eminentes filhos, reunidos no Concílio Vaticano II, na Sessão Pública do dia 18 de novembro de 1965, promulgou o seguinte documento, que reproduzimos na íntegra:

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

Paulo Bispo, Servo dos Servos de Deus, juntamente com os Padres do Sagrado Concílio, para perpétua memória do acontecimento: Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina.

INTRODUÇÃO

1 A Palavra de Deus é religiosament auscultade com coragem proclamada pelo Concílio, que faz suas as palavras de São João: Nós vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e se nos manifestou: nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos ´ para que vós também estejais em comunhão conosco e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo ( I Jo 1, 2´3). Por isto, seguindo as pegadas dos Concílios Tridentino e Vaticano I, este Santo Concílio se propõe expor a genuína doutrina acerca da Revelação Divina e de sua transmissão a fim de que, pelo anúncio da salvação, o mundo inteiro ouvindo creia, crendo espere, esperando ame.1

I. A REVELAÇÃO COMO TAL

Natureza e objeto da Revelação

2 Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar´se e tomar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens têm, no Espírito Santo, acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina por Cristo, Verbo feito carne (cf. Ef 2, 18; II Pe 1, 4). Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível (cf. Col 1, 15; I Tim 1, 17), levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos ( cf. Êx 33, 11; Jo 15, 14´15), entretém´se com eles (cf. Bar 3, 38) para convidá´los à participação de sua intimidade. Esta economia da Revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos. Assim, as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade comunicada por esta revelação a respeito de Deus e da salvação do homem se nos manifesta em Cristo que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação.2

Preparação da Revelação Evangélica

3 Criando pelo Verbo o universo (cf. Jo 1, 3) e conservando´o, Deus proporciona aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si mesmo (cf Rom 1, 19´20). Além disso, no intuito de abrir o caminho de uma salvação superior, manifestou´se a si mesmo desde os primórdios a nossos primeiros pais. E após a queda destes, havendo prometido a redenção, alentou´os a esperar uma salvação (cf. Gên 3, 15) e velou permanentemente pelo gênero humano, a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a salvação (cf. Rom 2, 6´7). A seu tempo, Deus chamou a Abraão, a fim de fazer dele um grande povo (cf. Gên 12, 2´3), ao qual, após os Patriarcas, foi educando por meio de Moisés e dos Profetas a reconhecê´lo como único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e a esperar o Salvador prometido. E assim foi Deus preparando, ao longo dos séculos, o caminho para o Evangelho.

Cristo completa a Revelação

4 Depois de ter falado em muitas ocasiões e de diversos modos pelos Profetas, ultimamente, nesta etapa final, Deus nos falou por seu Filho (Heb 1, 1´2). Com efeito, ele enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre eles e lhes expusesse os arcanos de Deus (cf. Jo 1, 1´18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como homem aos homens,3 fala a linguagem de Deus (Jo 3, 34) e consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou (cf Jo 5, 36; 17, 4). Eis por que ele, ao qual quem vê vê também o Pai (cf Jo 14, 9), pela plena presença e manifestação de si mesmo por palavras e obras, sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição dentre os mortos e, enfim, pelo Espírito de verdade enviado, realiza e completa a revelação e a confirma, atestando de maneira divina que Deus está conosco para libertar´nos das trevas da morte e do pecado e para ressuscitar´nos para a vida eterna. A economia cristã, pois, em sua qualidade de aliança nova e definitiva, jamais passará, e não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. I Tim 6, 14; Tt 2, 13).

A Revelação deve ser recebida na fé

5 Ao Deus que revela deve´se a obediência da fé (Rom 16, 26; cf. Rom 1, 5; II Cor 10, 5´6), pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade4 e dando voluntário assentimento à verdade por ele revelada. Para que se preste essa fé, exigem´se a graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e converte´o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade.5 A fim de tornar sempre mais profunda a compreensão da Revelação, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa continuamente a fé por meio de seus dons.

As verdades reveladas

6 Pela revelação divina quis Deus manifestar´se e comunicar´se a si mesmo e os decretos eternos de sua vontade acerca da salvação dos homens, a saber, para fazer participar os bens divinos, que superam inteiramente a capacidade da mente humana.6 Este sacrossanto Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas (cf Rom 1, 20); mas ensina que se deve atribuir à sua revelação o fato de mesmo na presente situação do gênero humano se poderem conhecer por todos e de modo acessível e com sólida certeza e sem mistura de nenhum erro aquelas coisas que em matéria divina não são de per si inacessíveis à razão humana.7

II. DIVINA REVELAÇÃO TRANSMISSÃO DA

Os Apóstolos e seus sucessores, pregoeiros do Evangelho 7 Em sua extrema benignidade, Deus tomou providências a fim de que aquilo que ele revelara para a salvação de todos os povos se conservasse inalterado para sempre e fosse transmitido a todas as gerações. Por isto o Cristo Senhor, em quem se completa toda a revelação do Sumo Deus (cf. II Cor 1, 20; 3, 16´4, 6), ordenou aos Apóstolos que o Evangelho, prometido antes pelos Profetas, completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por eles pregado a todos os homens como fonte de toda verdade salvífica e de toda disciplina de costumes, comunicando´lhes dons divinos.8 E isto foi fielmente executado tanto pelos Apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e instituições, transmitiram aquelas coisas que receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou que aprenderam das sugestões do Espírito Santo, como também por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob inspiração do mesmo Espírito Santo, puseram por escrito a mensagem da salvação.9 Mas para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os Bispos, a eles transmitindo o seu próprio encargo de Magistério.10 Portanto, esta Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura de ambos os Testamentos são como o espelho em que a Igreja peregrinante na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até que chegue a vê´lo face a face como é (I Jo 3, 2).

CONCÍLlO VATICANO II ´ DEI VERBUM, SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

A Sagrada Tradição

8 Assim, a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar´se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por isto os Apóstolos, transmitindo aquilo que eles próprios receberam (cf. I Cor 11, 23; 15, 3), exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja oralmente, seja por carta (cf. II Tes 2, 15) e a combater pela fé uma vez transmitida aos santos (cf. Jdr 3).11 Quanto à Tradição recebida dos Apóstolos ela compreende todas aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer crescer a fé do Povo de Deus, e assim a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê. Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo.12 Cresce, com efeito, a compreensão tanto das realidades como das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos que crêem, os quais as meditam em seu coração (cf. Lc 2, 19.5 1), seja pela íntima compreensão que desfrutam das coisas espirituais, seja pela pregação daqueles que com a sucessão do episcopado receberam o carisma autêntico da verdade. É que a Igreja, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nelas as palavras de Deus. O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante dessa Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja que crê e ora. Pela mesma Tradição toma´se conhecido à Igreja o Cânon completo dos Livros Sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nela cada vez melhor compreendidas e se fazem sem cessar atuantes. E assim o Deus, que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo (cf. Col 3, 16).

Relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura

9 A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão, portanto, estreitamente conexas e interpenetradas. Ambas promanam da mesma fonte divina, formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito, a Sagrada Escritura é a fala de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles em sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam. Resulta, assim, que não é através da Escritura apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo que foi revelado. Por isso, ambas ´ Escritura e Tradição ´ devem ser recebidas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência.13

Relação da Tradição e da Bíblia com a Igreja e o Magistério

10 A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só sagrado depósito da palavra de Deus confiado à Igreja. Em se lhe apegando firmemente, o povo santo todo, unido a seus Pastores, persevera continuamente na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas orações (cf. 1, 42 ), de sorte que se verifica, da parte de Antístites e de fiéis, uma singular convergência no conservar, praticar e professar a fé transmitida.14 O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida15 foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja,16 cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo. Tal Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo religiosamente ausculta aquelas palavras, santamente a guarda e fielmente a expõe. E deste único depósito da fé o Magistério tira tudo aquilo que nos propõe como verdade de fé divinamente revelada. Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal maneira entrelaçados e unidos que um perde sua consistência sem os outros e que, juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.

III. INSPIRAÇÃO DIVINA DA BÍBLIA E SUA INTERPRETAÇÃO

Inspiração e verdade na Sagrada Escritura 11 As coisas divinamente reveladas, que se encerram por escrito na Sagrada Escritura e nesta se nos oferecem, foram consignadas sob influxo do Espírito Santo. Pois a Santa Mãe lgreja, segundo a fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, escritos sob a inspíração do Espírito Santo (cf. Jo 20, 31; II Tim 3, 16; II Pe 1, 19´21; 3, 15´16), eles têm em Deus o seu autor e nesta sua qualidade foram confiados a mesma Igreja. 17 Na redação dos livros sagrados Deus escolheu homens, utilizou´se deles sem tirar´lhes o uso das próprias capacidades e faculdades,18 a fim de que, agindo ele próprio neles e por eles,19 consignassem por escrito, como verdadeiros autores, aquilo tudo e só aquilo que ele próprio quisesse.20 Portanto, já que tudo o que os autores inspirados ou os hagiógrafos afirmam deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, segue´se que devemos confessar que os livros da Escritura ensinam inconcussamente, fielmente e sem erro a verdade que Deus para nossa salvação quis fosse consignada por escrito.21 Por isso, toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra (II Tim 3, 16´17).

Como interpretar a Sagrada Escritura

12 Entretanto, já que Deus na Sagrada Escritura falou através de homens e de modo humano,22 deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que foi que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e por suas palavras aprouve a Deus manifestar. Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, deve´se levar em conta, entre outras coisas, também os gêneros literários. Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras bem diferentes nos textos de um modo ou outro históricos, ou proféticos, ou poéticos, bem como em outras modalidades de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em uso.23 Pois, para corretamente entender aquilo que o autor sacro haja intencionado afirmar por escrito, é necessário levar devidamente em conta tanto as nossas maneiras comuns e espontâneas de pensar, falar e contar, as quais já eram correntes no tempo do hagiógrafo, como as que costumavam empregar´se no intercâmbio humano daquelas eras.24 Mas como a Sagrada Escritura deve ser também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita,25 para bem captar o sentido dos textos sagrados, deve´se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levada em conta a Tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar esforçadamente dentro destas diretrizes para mais aprofundadamente entender e expor o sentido da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho de certo modo preparatório amadureça o julgamento da Igreja. Pois tudo o que concerne à maneira de interpretar a Escritura está sujeito em última instância ao juizo da Igreja, que exerce o mandato e ministério divino de guardar e interpretar a palavra de Deus.26

Condescendência de Deus

13 Na Sagrada Escritura, portanto, manifesta´se, resguardada sempre a verdade e santidade de Deus, a admirável condescendência da eterna Sabedoria, a firn de que conheçamos a inefável benignidade de Deus, e de quanta acomodação de linguagem usou, providente e cuidadoso que é de nossa natureza.27 Pois as palavras de Deus expressas por línguas humanas se fizeram semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens.

CONCILIO VATICANO II ´ DEI VERBUM, SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

IV. O ANTIGO TESTAMENTO

A história da Salvação nos livros do Antigo Testamento 14 O amantíssimo Deus, querendo e preparando solicitamente a salvação de todo o gênero humano, por singular disposição escolheu para si um povo ao qual confiaria as promessas. Contraída a aliança com Abraão (cf. Gên 15, 18) e através de Moisés com o povo de Israel (cf. Êx 24, 8), Deus se revelou por palavras e ações como o único Deus verdadeiro e vivo. Israel fez assim a experiência dos caminhos de Deus para com os homens e, falando o próprio Deus pela boca dos Profetas, cada vez mais profunda e claramente os compreendeu e deles deu testemunho diante dos povos (cf. Sal 21, 28´29; 95, 1´3; Is 2, 1´4 ; Jer 3, 17). Mas a economia da salvação, prenunciada, narrada e explicada pelos autores sagrados, subsiste como verdadeira palavra de Deus nos livros do Antigo Testamento. Eis por que esses livros divinamente inspirados conservam um valor perene: Tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para a nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as Escrituras, tenhamos esperança (Rom 15, 4).

Importância do Antigo Testamento para os cristãos

15 A economia do Antigo Testamento estava ordenada principalmente para preparar a vinda de Cristo, redentor de todos, e de seu Reino Messiânico, para anunciá´la profeticamente (cf. Lc 24, 44; Jo 5, 39; I Pe 1, 10) e dá´Ia a conhecer através de várias figuras (cf. I Cor 10, 11). Os livros do Antigo Testamento, em conformidade com a condição do gênero humano dos tempos anteriores à salvação realizada por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem e os modos pelos quais o justo e misterioso Deus trata com os homens. Estes livros, embora contenham também algumas coisas imperfeitas e transitórias manifestam, contudo, a verdadeira pedagogia divina.28 Por isto, devem ser devotamente recebidos pelos cristãos esses livros que exprimem um sentido vivo de Deus e contêm sublimes ensinamentos acerca de Deus e uma salutar sabedoria concernente à vida do homem e admiráveis tesouros de preces, nos quais enfim está latente o mistério de nossa salvação.

Unidade dos dois testamentos

16 Deus, pois, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, de tal modo dispôs sabiamente, que o Novo estivesse latente no Antigo e o Antigo no Novo se aclarasse. 29 Com efeito, embora Cristo tenha estabelecido uma Nova Aliança em seu sangue (cf. Lc 22, 20; I Cor 11, 25), contudo, os livros todos do Antigo Testamento, recebidos na pregação evangélica,30 obtêm e manifestam seu sentido completo no Novo Testamento (cf. Mt 5, 17; Lc 24, 27; Rom 16, 25´26; II Cor 3, 14´16), e por sua vez o iluminam e explicam.

V. O NOVO TESTAMENTO

Excelência do Novo Testamento 17 A Palavra de Deus, que é a força de Deus para a salvação de todo o que crê (cf. Rom 1, 16), é apresentada e manifesta seu vigor de modo eminente nos escritos do Novo Testamento. Com efeito, quando chegou o tempo estabelecido (cf. Gal 4, 4), o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade (Jo 1, 14). Cristo instaurou na terra o Reino de Deus, por fatos e por palavras deu a conhecer o Pai e a si próprio, e completou sua obra com a morte, ressurreição e gloriosa ascensão e com o envio do Espírito Santo. Levantado da terra atrai todos a si (cf. Jo 12, 32). Ele é o único que tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68). Este mistério, porém, não foi manifestado a outras gerações como foi revelado agora aos seus santos Apóstolos e Profetas no Espírito Santo (cf Ef 3, 46) para que pregassem o Evangelho, suscitassem à fé em Jesus Cristo e Senhor e congregassem a Igreja. Os escritos do Novo Testamento são testemunho perene e divino destas coisas.

Origem apostólica dos Evangelhos

18 Ninguém desconhece que entre todas as Escrituras, mesmo as do Novo Testamento, os Evangelhos gozam de merecida primazia, uma vez que constituem testemunho por excelência da vida e da doutrina do Verbo Encarnado, nosso Salvador. Que os quatro Evangelhos têm origem apostólica, a Igreja sempre e em toda parte o ensinou e ensina. Pois, aquilo que os Apóstolos pregaram por ordem de Cristo, eles próprios e os varões apostólicos sob a inspiração do Espírito Santo no´lo transmitiram em escritos que são o fundamento da fé, a saber, o quadriforme Evangelho ´ segundo Mateus, Marcos, Lucas e João.31

Índole histórica dos Evangelhos

19 A Santa Mãe Igreja firme e constantemente creu e crê que os quatro mencionados Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente aquilo que Jesus, Filho de Deus, ao viver entre os homens, realmente fez e ensinou para salvação deles, até o dia em que foi elevado (cf. At 1, l´2). Os Apóstolos, após a ascensão do Senhor, transmitiram aos ouvintes aquilo que ele dissera e fizera, com aquela mais plena compreensão de que gozavam, instruídos que foram pelos gloriosos acontecimentos concernentes a Cristo32 e esclarecidos pela luz do Espírito da verdade.33 Os autores sagrados escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo certas coisas das muitas transmitidas ou oralmente ou já por escrito, fazendo síntese de outras ou explanando´as com vistas à situação das igrejas, conservando enfim a forma de proclamação, sempre de maneira a transmitir´nos verdades autênticas a respeito de Jesus.34 Pois foi esta a intenção com que escreveram, seja com fundamento na própria memória e recordações, seja baseado no testemunho daqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra, para que conheçamos a solidez daqueles ensinamentos que temos recebido (Lc 1, 2´4).

Os demais escritos do Novo Testamento

20 O cânon do Novo Testamento contém, além dos quatro Evangelhos, também as cartas de São Paulo e outros escritos apostólicos exarados sob inspiração do Espírito Santo. É através deles que, por um sábio desígnio de Deus, é confirmado o testemunho de Cristo Senhor, é mais e mais elucidada a sua genuína doutrina, anuncia´se o poder salvífico da obra divina de Cristo, narram´se os inícios e a admirável difusão da Igreja e se prenuncia a sua gloriosa consumação. Pois o Senhor Jesus, conforme prometera, assistiu seus Apóstolos (cf. Mt 28, 20) e lhes enviou o Espírito Paráclito que deveria conduzi´los à plenitude da verdade (cf. Jo 16, 13).

VI. A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA

A Igreja venera as Sagradas Escrituras

21 A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como sempre venerou ao próprio corpo do Senhor, já que sem cessar toma da mesa da palavra de Deus e do Corpo de Cristo o pão da vida e o serve aos filhos. Sempre as teve e tem, juntamente com a Tradição, como suprema regra de sua fé, porque, inspiradas por Deus e consignadas por escrito uma vez para sempre, comunicam imutavelmente a palavra do próprio Deus e fazem ressoar através das palavras dos Profetas e Apóstolos a voz do Espírito Santo. É necessário, portanto, que toda pregação eclesiástica, como a própria religião cristã, seja alimentada e orientada pela Sagrada Escritura. Nos Livros Santos, com efeito, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. E é tão grande a força poderosa que se encerra na palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo vigoroso para a Igreja, firmeza na fé para seus filhos, alimento da alma, perene e pura fonte da vida espiritual. Por tudo isto, aplicam´se perfeitamente à Sagrada Escritura estas palavras: A palavra de Deus é viva e eficaz (Heb 4, 12), poderosa para edificar e repartir a herança entre os santificados (Ar 20, 32; cf. I Tes 2, 13).

Traduções corretas e adequadas

22 É preciso que o acesso à Sagrada Escritura seja amplamente aberto aos fiéis. Por isso, desde o início a Igreja acolheu como sua e conhecida antiquíssima versão do Antigo Testamento, chamada dos Setenta; e tem sempre em honrosa consideração as outras versões orientais e as versões latinas, principalmente a chamada Vulgata. Porém, como a palavra de Deus deve estar à disposição de todas as épocas, pede a Igreja com materna solicitude se façam versões corretas e adequadas para as diversas línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados. Se se julgar oportuno, as traduções poderiam contar com a colaboração dos irmãos separados e, prévia anuência da autoridade eclesiástica, poderiam ser utilizadas por todos os cristãos.

Empenho dos estudiosos e especialistas

23 A Esposa do Verbo Encarnado, a Igreja, instruída pelo Espírito Santo, se esforça para conseguir cada dia uma compreensão mais profunda da Sagrada Escritura, a fim de incessantemente nutrir seus filhos com os ensinamentos divinos. Por esta razão, fomenta devidamente o estudo dos Santos Padres do Oriente e do Ocidente e das Sagradas Liturgias. É preciso que os exegetas católicos e todos aqueles que se dedicam à Sagrada Teologia, unindo corajosamente suas forças, procurem, com meios aptos, investigar e apresentar, sob a vigilância do Magistério, as divinas Letras, de maneira que o maior número possível de ministros da divina Palavra possa frutuosamente fornecer ao Povo de Deus o alimento das Escrituras que ilumine a mente, fortaleça as vontades e inflame os corações dos homens para o amor de Deus.35 Este concilio encoraja os filhos da Igreja que se dedicam aos assuntos bíblicos a que com todo o esforço prossigam de acordo com o sentir da Igreja, na execução do trabalho felizmente empreendido, com cotidiana renovação de forças.36

Importância da Sagrada Escritura para a Teologia

24 A Sagrada Teologia tem por base, como seu perene fundamento, a palavra escrita de Deus junto com a Sagrada Tradição, e neste fundamento ela se fortalece firmissimamente e sempre se remoça perscrutando à luz da fé toda a verdade encerrada no mistério de Cristo. Ora, as Sagradas Escrituras contêm a palavra de Deus e, porque inspiradas, são verdadeiramente palavra de Deus. Por isto, o estudo das Sagradas Páginas seja como que a alma da Sagrada Teologia.37 Nesta mesma palavra da Sagrada Escritura também se nutre salutarmente e santamente floresce o ministério da palavra, a saber, a pregação pastoral, a catequese e toda a instrução cristã, na qual deve ter lugar de destaque a homilia litúrgica.

Recomenda´se a leitura da Sagrada Escritura

25 Eis por que é necessário que todos os clérigos, sobretudo os sacerdotes de Cristo e os outros que, como diáconos ou catequistas, legitimamente se consagram ao ministério da palavra, se apeguem às Escrituras Sagradas, mediante assídua leitura e cuidadoso estudo das mesmas, para que não venha a ser vão pregador da palavra de Deus externamente, quem a ela não presta ouvido interiormente,38 quando, especialmente na Sagrada Liturgia, tem que comunicar aos fiéis a si confiados as vastíssimas riquezas da palavra divina. O Concílio exorta igualmente, com ardor e insistência, a todos os fiéis cristãos, especialmente aos religiosos, a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, alcancem esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo (Flp 3, 8). Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.39 De bom grado, pois, vão ao próprio texto sagrado, quer pela Sagrada Liturgia, repleta da divina palavra, quer pela piedosa leitura, quer por cursos apropriados e outros meios que, com a aprovação e empenho dos Pastores da Igreja, hoje em dia louvavelmente se difundem por toda parte. Lembremse, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça um colóquio entre Deus e o homem. Pois ´com ele falamos quando rezamos, a ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos. 40 Cabe aos sagrados Pastores, depositários da doutrina apostólicas,41 educar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados para o correto uso dos livros divinos, sobretudo do Novo Testamento e dos Evangelhos, por meio de versões dos textos sagrados acompanhadas das explicações necessárias e realmente suficientes, a fim de que os filhos da Igreja, segura e utilmente, se familiarizem com as Escrituras Sagradas e de seu espírito fiquem imbuídos.

Além disso, façam´se edições da Sagrada Escritura munidas de apropriadas anotações, para uso também dos não´cristãos e adaptadas à situação deles. E, tanto os Pastores de almas como os cristãos de qualquer condição, inteligentemente procurem difundi´las de todos os modos.

Conclusão

26 Assim, pois, com a leitura e o estudo dos Livros Sagrados, se propague e seja estimada a palavra do Senhor (II Tes 3, I), e o tesouro da Revelação confiado à Igreja cada vez mais tome conta dos corações dos homens. Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela assídua participação no mistério eucarístico, assim é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual de uma acrescida veneração pela palavra de Deus, que permanece eternamente (Is 40, 8; cf. I Pe 1, 23´25). Todo o conjunto e cada um dos pontos que foram enunciados nesta Constituição Dogmática pareceram bem aos Padres Conciliares. E nós, em virtude do Poder Apostólico a nós confiado por Cristo, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo os aprovamos, decretamos e estatuímos. E o que foi determinado em Concílio mandamos seja promulgado para a Glória de Deus. Roma, junto de São Pedro, no dia 18 de novembro de 1965. Eu, Paulo, Bispo da Igreja Católica. Seguem´se as assinaturas dos Padres Conciliares...

1Cf S. Agostinho: De Catech. rudibus, IV, 8. 2Cf. Mt 11, 27; Jo 1, 14.17; 14, 6; 17, 1´3; II Cor 3, 16; 4, 6; Ef 1, 3´14. 3Carta a Diogneto, VII, 4. 4Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., III, sobre a fé. 5Conc. de Orange II: Cânon 7 ´ Conc. Vat. I: 1 cit. 6Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., cap. II, sobre a revelação. 7lbidem. 8Cf. Mt 28, 19´20; Mc 16, 15 ´ Conc. Trid.: IV, sobre os livros canônicos. 9Conc. Trid.: 1, cit. ´ Conc. Vat. I: III. 2, sobre a revelação. 10S. Ireneu, Adv. Haer., III, 3, 1. 11Conc. Niceno II ´ Conc. Constant. IV: X, 1. 12Cf. Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., IV, sobre a fé e a razão. 13Cf. Conc. Trid.: 1, cit. 14Cf. Pio XII: Const. Munificentissimus Deus, lembrando as palavras de S. Cipriano: A Igreja, povo reunido a seu Sacerdote, grei unida a seu Pastor (Epist. 66, 8). 15Cf. Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., III, sobre a fé. 16Cf. Pio XII: Enc. Humani Generis. 17Cf. Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., II, sobre a revelação ´ Pontifícia Comissão Bíblica, decr. 18´7´1915 ´ Santo Ofício, Carta 22´12´1923. 18Cf. Pio XII: Enc. Divino Afflante Spiritu. 19Em e pelo homem: cf. Hb 1, 1 e 4,7 (em): II Sm 23, 2; Mt 1, 22 e numerosos outros lugares (por) ´ Conc. Vat. I: Esquema sobre a doutrina católica, nota 9. 20Leão XIII: Enc. Providentissimus Deus. 21Cf. S. Agostinho: Gen. ad litt. 2, 9, 20; Epist. 82, 3 ´ S. Tomás: De Ver. q. 12, a. 2, C ´ Conc. Trid.: IV, sobre os livros canônicos ´ Leão XIII: Enc. Providentissimus ´ Pio XII: Enc. Divino afflante Spiritu. 22S. Agostinho: e Civ. Dei, XVII, 6.2.23S. Agostinho: De Doctr Christ., III, 18, 26. 24Pio XII: I. cit. 25Cf. Bento XV: Enc. Spiritus Paraclitus ´ S. Jerônirno: In Gal. 5,19´21. 26Cf. Conc.Vat. I: Const. dogm. de fide catholica, II, sobre a revelação. 27S. João Crisóstomo: In Gen. 3,8 (hom.17,1). [Acomodação (attemperatio) em grego se diz synkatábasis.] 28Pio XI: Enc. Mit Brennender Sorge. 29S. Agostinho: Quaest. in Hept. 2,73. 30S.Ireneu: Adv. Haer. III, 21,3 ´ S. Cirilo de Jerusalém: Catech. 4,35´ Teodoro de Mops.: In Soph. l, 4´6. 31Cf. S. Ireneu: Adv. Haer III, 11,8. 32Cf. Jo 14, 26; 16, 13 . 33Jo 2, 22; 12, 16 ; cf 14, 26; 16, 12´13; 7, 39. 34Cf. Conselho Pont. para os Estudos Bíblicos: Instrução Sancta Mater Ecclesia. 35Cf. Pio XII: Enc. Divino afflante Spiritu ´ Pont. Com. Bíblica: Instrução sobre o modo de ensinar a Sagrada Escritura nos Seminários. 36Cf. Pio XII: Ibidem. 37Cf. Leão XIII: Enc. Providentissimus ´ Bento XV: Enc. Spiritus Paraclitus. 38S. Agostinho: Serm., 179, 1. 39S. Jerônimo: Comm. in Is., Prol. ´ Cf. Bento XV: Enc. Spiritus Paraclitus ´ Pio XII: Enc. Divino afflante Spiritu. 40S. Ambrósio: De officiis ministrorum 1, 20, 88. 41S. Ireneu, Adv. Haer, IV, 32, 1.

FELIPE AQUINO FALA SOBRE O CÓDIGO DA VINCI!!!

A FARSA DE “O CÓDIGO DA VINCI”

por Prof. Felipe Aquino

O livro “O Código Da Vinci” é um bestseller (já vendeu 40 milhões de exemplares), de autoria de Dan Brown, um romancista que não é historiador, norte-americano, que foi professor de inglês da Philips Exeter Academy de New Hampshire. O filme, com o mesmo nome, será lançado no mundo todo a partir de 19 de maio, por um milionário marketing; calcula-se que será visto por 800 milhões de pessoas. O seu efeito será muito maior do que o livro.

A trama do romance, que é uma ficção histórica, pretende mostrar que “o Cristianismo é uma falsidade e uma impostura”, uma invenção da Igreja Católica, mantida a preço de crimes e guerras ao longo dos séculos.

Vários objetivos são nitidamente visados pela obra, que deseja questionar: a veracidade histórica do Cristianismo, a verdadeira divindade de Jesus Cristo, a confiabilidade histórica da Bíblia, a origem e o desenvolvimento da fé católica e as reais atividades dos Apóstolos. Deseja-se mostrar que a cultura judaico-cristã é fundada em uma mentira misógina (aversão a mulheres).

Pretende-se, na verdade, aproveitar o escândalo que o livro e o filme provocam nas pessoas para fazer sucesso com um público carente de formação religiosa, mas ao mesmo tempo ávido de fantasia e de suspense religioso. O autor emprega a maliciosa tática de encher páginas e páginas com informações supostamente verdadeiras, mas que na verdade não têm nenhuma base religiosa, artística, histórica e cultural. Trata-se de uma ficção travestida de história.

A trama de Brown afirma que Jesus teria sido casado com Maria Madalena, com quem teria tido uma filha; ambas teriam fugido para a França por causa da perseguição dos Apóstolos, protegida porém por alguns defensores. Ali na França geraram uma descendência que teria no século V se casado com pessoas de sangue real francês dando origem à linhagem dos merovíngios, do qual surgiu o rei Godofredo de Bulhões. Este rei, descendente de Jesus e Madalena, teria fundado a sociedade secreta Irmandade do Priorado de Sião, para proteger a “verdade” sobre Madalena e a sua descendência. Esta entidade transmite seu segredos em códigos ocultos. Daí aparece a figura de Leonardo da Vinci (1452-1519), que teria sido membro do Priorado de Sião, assim como o fisico Isaac Newton e outros. As obras famosas de Da Vinci (Mona Lisa, Ultima Ceia, Homem vitruviano, etc.) conteriam sinais e símbolos secretos do Priorado de Sião. Por exemplo, no quadro da “Santa Ceia”, pintado durante três anos numa parede do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, com nove metros de comprimento e quatro de altura, a figura junto a Cristo não seria de São João, mas de Madalena. No entanto, os peritos em arte afirmam que Leonardo quis retratar o momento no qual Cristo anuncia haver um traidor entre os discípulos.

Jesus teria confiado a chefia da Igreja a Madalena, mas isto teria sido silenciado pela Igreja e pelos Apóstolos ao longo dos séculos, usando para isto crimes e guerras; algo que não tem fundamento histórico algum. O autor prefere confiar mais no enredo do filme “A última tentação de Cristo” do que nos sérios relatos históricos de vinte séculos de estudos bíblicos. Nem mesmo os evangelhos gnósticos, usados pelo autor, evangelho de Felipe e evangelho de Maria (Madalena) afirmam que Jesus era casado com Madalena e, muito menos, que teria deixado a chefia da Igreja com ela.

A Igreja Católica é mostrada na obra como uma grande mentira histórica, invenção do imperador Constantino (séc IV), que teria feito do Cristianismo uma religião para todo o império, com o objetivo de unificá-lo, transformando Jesus em Deus no Concilio de Nicéia, em 325, e substituindo o culto da deusa Vênus por Cristo. O imperador Constantino teria fundido os ensinamentos cristãos com as tradições pagãs, para que fossem mais facilmente aceitos pelo povo. Para que tudo isso acontecesse o imperador teria mandado destruir todos os relatos evangélicos e reescrevê-los, para demonstrar a divindade e Cristo. Cerca de oitenta evangelhos teriam sido queimados. No entanto, nenhum registro dos paleontólogos e da história confirmam isto. Assim, teria sido suprimida a figura da “mulher de Jesus” nos quatro Evangelhos canônicos, e apresentada uma nova imagem de Madalena como prostituta.

A partir daí a Igreja Católica teria recusado o aspecto feminino e sexual da religião cristã. Há uma nítida tentativa do autor de jogar a mulher e o feminismo contra a Igreja, mostrando-a inimiga da mulher. Nesta ficção histórica o autor descreve a Igreja Católica, representada pelo Vaticano e pelo Opus Dei, capaz de todo tipo de crimes, chegando a assassinar cinco milhões de mulheres (bruxas) e hereges; o que é um absurdo histórico. Em oposição à mentira e impostura do Cristianismo, o autor apresenta como verdadeira a religião dos cultos pagãos anteriores ao Cristianismo, que adoravam a divindade feminina e praticavam o sexo sagrado.

O Opus Dei é apresentado como uma sociedade secreta a serviço da Igreja e que confronta o Priorado de Sião na busca do Santo Graal (sangue real), que seria o túmulo de Maria Madalena, onde estariam outros documentos preciosos escritos por Jesus e deixados para Madalena, escondidos sob as ruínas do templo de Herodes. Quem tivesse posse desses documentos seriam poderosos. Os Cruzados teriam tentado encontrar esses documentos mas não conseguiram porque foram impedidos por um grupo de “nobres cavaleiros da verdade” chamados de Cavaleiros Templários; que estavam a serviço do Priorado de Sião. Os Templários teriam encontrado o Santo Graal e teriam negociado com o Vaticano enormes exigências. Saiba que nesta época a Igreja não tinha a sua sede no Vaticano e sim no Palácio do Latrão, doado pelo imperador Constantino. A residência do Papa no Vaticano só foi construída muito mais tarde.

O livro é repleto de erros históricos. Os descendentes de Maria Madalena na França teriam sido protegidos contra a Igreja pela Irmandade secreta chamada Priorado de Sião, desde o século IV. No entanto, a primeira instituição com este nome só surgiu no ano 1100; uma Ordem monástica católica (Mosteiro de Nossa Senhora de Sião), em Jerusalém, que deixou de existir em 1617.

O livro quer levar a entender que é necessário a Igreja Católica reconhecer a sua impostura e os seus crimes, voltando a adorar a divindade feminina, e assim mudar a sua doutrina moral sobre a sexualidade, inclusive aceitando o sacerdócio de mulheres e outras coisas.

Há muita invenção, maldade e perversão na obra. No entanto, os leitores mais despreparados podem ficar com a idéia de que a Igreja Católica, e em particular o Vaticano e o Opus Dei, é uma Instituição que não é digna de confiança. Visa-se, portanto, desprestigiar a Igreja.

Se de um lado o livro e o filme de Brown atacam pesadamente a Igreja e o Cristianismo, por outro lado abre as portas para uma evangelização junto àqueles que gostarão de saber a verdade. Por isso é necessário estarmos preparados para apresentar as devidas explicações históricas e religiosas. Deus, como sempre faz, saberá tirar desse mal algum bem para a Igreja; ela é invencível, jamais as portas do inferno a vencerão (cf. Mt 16, 18).

Fontes:

- A Igreja ante o Código Da Vinci, Documento do Episcopado mexicano (29mar06).
- O Opus Dei e o próximo filme “O Código da Vinci”, zenit.org 13jan06
- A Verdade por trás de “O Código da Vinci”, Richard Abanes, Ed. Rideel. SP, 2004
- Decodificando Da Vinci, Amy Welborn, Ed. Cultrix, SP
- O Pensamento Vivo de Da Vinci, Martin Claret Editores, 1986, SP
- O Código da Vinci, Dan Brown, Ed. Sextante, SP, 2005

A FARSA DE “O CÓDIGO DA VINCI” II


por Prof. Felipe Aquino

Fontes usadas:

- O Código da Vinci, Dan Brown, Ed. Sextante, SP, 2005
- A Igreja ante o Código Da Vinci, Documento do Episcopado mexicano (29mar06).
- O Opus Dei e o próximo filme “O Código da Vinci”, zenit.org 13jan06
- A Verdade por trás de “O Código da Vinci”, Richard Abanes, Ed. Rideel. SP, 2004
- Decodificando Da Vinci, Amy Welborn, Ed. Cultrix, SP
- O Pensamento Vivo de Da Vinci, Martin Claret Editores, 1986, SP

INTRODUÇÃO

- “O Código Da Vinci” é um bestseller (já vendeu 40 milhões de exemplares), de autoria de Dan Brown, um romancista que não é historiador, norte-americano, que foi professor de inglês da Philips Exeter Academy de New Hampshire.

- O filme movido por um milionário marketing deve ser visto por 800 milhões de pessoas. O seu efeito será muito maior do que o livro.

O QUE PRETENDE O AUTOR

1 - mostrar que “o Cristianismo é uma falsidade e uma impostura”, uma invenção da Igreja Católica, mantida a preço de crimes e guerras ao longo dos séculos. Criado por Constantino, e não por Jesus Cristo.

2 – Cristo não é Deus; foi feito Deus por Constantino no Concílio de Nicéia (325)

3 – questionar a veracidade histórica do Cristianismo,

4 - a confiabilidade histórica da Bíblia. Constantino queimou 80 evangelhos e reescreveu a Bíblia.

5 - a origem e o desenvolvimento da fé católica e as reais atividades dos Apóstolos.

6 - a cultura judaica- cristã é fundada em uma mentira misógina (aversão a mulheres).

7 - aproveitar o escândalo para fazer sucesso com um público carente de formação

Nota: O autor emprega a maliciosa tática de encher páginas e páginas com informações supostamente verdadeiras, mas que na verdade não têm nenhuma base religiosa, artística, histórica e cultural. Trata-se de uma ficção travestida de história.

A TRAMA DE BROWN

1 - Jesus teria sido casado com Maria Madalena, com quem teria tido uma filha; ambas teriam fugido para a França perseguidas pelos Apóstolos.

2 - Jesus teria confiado a chefia da Igreja a Madalena, mas isto teria sido silenciado pela Igreja e pelos Apóstolos ao longo dos séculos, usando para isto crimes e guerras.

3 - Na França os descendentes de Jesus e Madalena, no século V, teriam se casado com pessoas de sangue real francês dando origem à linhagem dos merovíngios, da qual nasceu o rei Godofredo de Bulhões (1099).

4 – Este rei, descendente de Jesus e Madalena, teria fundado a sociedade secreta “Irmandade do Priorado de Sião”, para proteger a “verdade” sobre Madalena e a sua descendência. Teriam criado para isto os “Cavaleiros Templários”.

5 - Esta entidade transmite seus segredos em códigos ocultos. Daí aparece a figura de Leonardo da Vinci (1452-1519), que teria sido membro do Priorado de Sião, assim como o fisico Isaac Newton, Victor Hugo e outros. As obras famosas de Da Vinci (Mona Lisa, Ultima Ceia, Homem Vitruviano, etc.) conteriam sinais e símbolos secretos do Priorado de Sião.

6- Há uma nítida tentativa do autor de jogar a mulher e o feminismo contra a Igreja, mostrando-a inimiga da mulher. A Igreja Católica, representada pelo Vaticano e pelo Opus Dei, (www.opusdei.org.br) teria assassinado cinco milhões de mulheres (bruxas) e hereges. (um absurdo histórico)

7 - O Opus Dei é apresentado como uma sociedade secreta a serviço da Igreja e que confronta o Priorado de Sião na busca do Santo Graal (sangue real).

8 - Os Cruzados teriam tentado encontrar esses documentos mas não conseguiram porque foram impedidos pelos Cavaleiros Templários, que os encontraram.

MAIS ALGUNS ERROS DO LIVRO E DO FILME

1 - Nem os evangelhos gnósticos, usados pelo autor, evangelho de Felipe e evangelho de Maria (Madalena) afirmam que Jesus era casado com Madalena e, muito menos, que teria deixado a chefia da Igreja com ela.

2 - O Opus Dei só foi fundado em 1928 por S. Josemaria Escrivá de Balaguer e nunca foi entidade secreta.

3 - A primeira instituição chamada Priorado de Sião só surgiu no ano 1100; uma Ordem monástica católica (Mosteiro de Nossa Senhora de Sião), em Jerusalém, que deixou de existir em 1617.

4 – Nenhuma literatura séria coloca Da Vinci como membro de seita secreta.

MARIOLOGIA: O ROSÁRIO NA HISTÓRIA

O Rosário na História

Jornal: `L`OSSERVATORE ROMANO`
Nº 3 - Ano 18 de Janeiro de 2003 - Pág. 10.


ANO DO ROSÁRIO: Para uma leitura da Carta Apostólica
`Rosarium Virginis Mariae` - 1


O Rosário na história: desde o começo até à consolidação da sua estrutura atual


RICCARDO BARILE
Professor na Faculdade Teológica Dominicana de Bolonha


É quase impossível voltar a percorrer com precisão os passos que levaram à atual estrutura do Rosário. Mas podemos, ao contrário, seguir o nascimento e o desenvolvimento dos motivos básicos, que se relacionaram entre si dando origem a uma síntese de sentido e a um método de oração.


Antes de mais, a oração contínua muitas vezes condensou-se numa fórmula breve. A este respeito é conhecido a sugestão de repetir: `Vinde depressa, Senhor, ter comigo, vós sois a minha ajuda` (Sl 69, 2; Cassiano, Conferência 10, 10), ou a exortação: `Respirai sempre Cristo`(Santo Atanásio, Vida de Antônio, 91, 3), da qual aparecerá o exicasmo.


Mas a repetição levou à oração numérica, porque repetição e tempos de espera indeterminados geram ansiedade, enquanto um número apresenta um limite e um termo.


A oração numérica deu origem ao sentido do número: quantas fórmulas e em referência a quê? A resposta foi: em referência ao Saltério. Relacionada com esta intuição surgiu outra, a substituição, no sentido de que um determinado número de fórmulas breves substituiu os Salmos. A práxis fortaleceu-se sobretudo quando um número crescente de pessoas já não era capaz de ter acesso ao Saltério. Desta forma, verificou-se a substituição do Saltério com 150 fórmulas, ou a substituição das horas canônicas através de um número variante de Pater e Ave para cada uma. Foi dito num latim macarrônico: `Qui non potest psallere debet patere quem não pode recitar os Salmos deve recitar alguns Pater` (Cf. Meersseman, Ordo fraternitatis III, págs. 1444-1445).


Com a tendência numérica, afirmou-se na oração a atenção aos `mistérios` de Cristo. Já presente nos Padres, a devoção à humanidade de Cristo para alguns derivaria da adoração da Cruz na Sexta-Feira Santa, cada vez mais carregada de ressonâncias afetivas e marianas. Desta tríplice tendência - mistérios de Cristo, dimensão mariana, ressonância afetivas - com vista ao Rosário interessam duas realizações: os Saltérios marianos e as meditações sobre a vida de Cristo.


Os Saltérios marianos começaram no século XII em algumas comunidades cistercienses com o uso de acrescentar aos Salmos uma antífona mariana. Derivou daqui a tendência para editar unicamente as antífonas e compor diretamente Saltérios marianos, como aquele que é atribuído a Santo Anselmo de Aosta (+ 1213), com 150 antífonas rítmicas derivadas do versículo de um salmo.


No que se refere às meditações, uma certa antecipação da estrutura do Rosário encontra-se nas Meditações sobre as alegrias da Santa Virgem do cisterciense Estêvão de Sallay (falecido em 1252), que propõe um exercício de oração de 15 `alegrias` marianas divididas em três secções. Se o número 15 e as alegrias relacionam o que se escreveu com o Rosário, a complexidade e o comprimento marcam a sua diferença. Foram mais decisivas em relação ao espírito do Rosário as Meditaciones vite Christi, do início de 1300, atribuídas a São Boaventura e agora a João de Caulibus e disponíveis numa edição crítica no volume 153 do CCCM. As meditações sobre a vida pública de Jesus começam com o batismo e concluem-se com a última ceia (cap. 16-73) e é prestada atenção à presença de Maria: a Ela Jesus pede a bênção antes do ministério público recebendo a sua resposta: ` Vai, com a bênção do Pai e com a minha` (pág. 173, 9-10); a Ela, na ceia em Betânia (cap. 72), mesmo se `a Escritura não fala disto` (pág. 240, 2-3), Cristo revela a iminência da paixão e aparece-Lhe Ressuscitado (cap. 82) saudando-a: ` Salve sancta parens` (pág. 301, 28-29). Mais determinante para o Rosário foi a Vita Jesu Christi e quattuor Evangelis et scriptoribus ortodoxis concinnatta ou Vida de Cristo, de Ludolfo de Saxónia (+ 1377), publicada em Estrasburgo em 1474 e que, em pouco tempo, chegou a 78 edições latinas. O autor, dominicano, e depois cartuxo, com um esquema vasto (da geração do Verbo à parúsia), com citações de Padres e de autores medievais, com a conclusão orante de cada capítulo, contribui para enraizar estavelmente a referência aos mistérios de Cristo na oração pessoal.


Mudaram também as fórmulas. No início, a mais usada foi o Pai Nosso, tanto que Paternoster designava o instrumento para contar as orações. Depois, devido a vários fatores - incluindo a tradução do Akathistos em latim por volta do século IX - começou a prevalecer o uso do Ave, como testemunham São Pedro Damião (+ 1072) e um sínodo parisiense realizado por volta de 1200, que acrescentou ao Pater e ao Credo o Ave como oração quotidiana a ser ensinada ao povo (PL 145, 564; Mansi 22, 681). Formou-se assim um `Rosário` de 50 Ave e um `Saltério` de 150 Ave, que já no século XIII era recitado por pessoas devotas individualmente ou em grupos, como a Santimónia de Gand.


No que diz respeito ao instrumento, no antigo Paladino fala-se de um certo Paulo que recitava 300 formas por dia, recolhendo `igual número de pequenas pedras que levava no peito lançando fora uma por cada oração feita` (História lausíaca 20, 1). Depois era usada uma corda com nós, que alguns dizem que se tenha afirmado, através da Espanha, por influência da corda enodada - a subha ou tashbi - que no islão servia e serve para contar os 99 Nomes divinos e para apoiar o dirk, isto é, a recordação do Nome: não é possível demonstrar esta derivação mas é bonito pensar que seja verdadeira. Entre os cristãos do Oriente afirmou-se um análogo terço de corda ou de lã denominado kombológion ou Komboskoínon (kómbos em grego significa nó).


Por fim, a influência do teatro como animação litúrgica e depois como representação dos mistérios fora da liturgia fundou o aspecto da criação de imagens da meditação e a referência visual do Rosário: o quadro ou as imagens de um livro.


A convergência de todos estes fatores exigia um método de oração que os simplificasse e os harmonizasse. Isto verificou-se com três intervenções decisivas mesmo se não estavam coordenadas.


A primeira foi a divisão do Saltério das 150 Ave em 15 dezenas, sendo cada uma delas precedida de um Pater (na época o Ave não incluía a atual Segunda parte nem assuntos a serem meditados). A operação é atribuída ao cartuxo Enrico Egher de Kalcar (+ 1408), que outros, e não ele, fazem remontar a uma sugestão de Nossa Senhora. A divisão era feliz porque conservava o número 150 - o Saltério - e ritmava o seu comprimento adotando o esquema decimal, o mais óbvio porque se baseava nos dedos das mãos.


A segunda intervenção remonta ao cartuxo Domingos da Prússia (+ 1460), que, partindo do Rosário das 50 Ave, uniu uma cláusula ao nome de Jesus variante para cada uma, compondo um rosário ininterrupto de 50 Ave e 50 cláusulas e inspirando-se num opúsculo que resumia a Vida de Cristo de Ludolfo. Este rosário era o espelho e o equilíbrio perfeito do seu tempo e talvez um equilíbrio absoluto. De fato, não substituía nem a litúrgia nem a Escritura; unia a inspiração da oração numérica com a meditação dos mistérios de Cristo; concedia espaço ao que, comovendo, podia suscitar devoção (14 cláusulas à infância, 23 à paixão, apenas 7 à glória); permanecia aberto a toda a vida de Cristo com 6 cláusulas sobre a vida pública: Jesus, `que João batizou no Jordão, indicando-o como o cordeiro de Deus / que jejuou durante quarenta dias no deserto e que satanás tentou três vezes / que, tendo reunido os discípulos, anunciou ao mundo o reino dos céus / que restituiu a vista aos cegos, curou os leprosos, os paralíticos e libertou todos os que estavam oprimidos pelo diabo / cujos pés Maria Madalena lavou com as suas lágrimas, enxugou com os cabelos, beijou e cobriu de perfume / que ressuscitou Lázaro morto havia já três dias e também outros mortos`.


Mas a intervenção decisiva foi feita pelo dominicano bretão Alano de la Toche (+ 1475), que estabilizou o Rosário assumindo-o também como instrumento pastoral. Com esta finalidade, instituiu a primeira confraria entre 1464 e 1468, aprovada pela ordem dominicana a 16/5/1470: tratava-se de antigas confrarias que Alano revitalizou dando-lhes a oração do Saltério mariano, revigorando-as com a pregação e um novo impulso. Tudo isto tornou usual, naquele tempo, uma oração que por si só, talvez tivesse desaparecido com os seus inspiradores. Alano conhecia e recomendava muitos rosários ou saltérios, com o Pater ou com Ave, só cristológicos ou só marianos, com ou sem cláusulas. Mas preferia as 15 dezenas em virtude dos 15 Pater que, segundo uma crença, num anno honravam as feridas da paixão do Senhor, que teriam sido 5475, isto é, 365 (os dias do ano) vezes 15. Alano insistia sobre o Saltério: todos os dias os confrades deviam rezar com 150 fórmulas e evitar o mais possível a palavra rosário que, na época, tinha uma marca mundana. Entre as numerosas propostas de Alano encontra-se também o nosso atual Rosário, como um `Rezar diretamente dirigindo-se a Cristo. E assim, as primeiras cinqüenta sejam rezadas em honra de Cristo encarnado. A segunda de Cristo que sofre a paixão. A terceira em honra de Cristo que ressuscita, que se eleva ao céu, que manda o Paráclito, que se senta à direita do Pai, que virá para julgar` (Apologia 14, 20). Por fim, Alano deu ao Saltério da Virgem um fundamento espiritual, reencontrando-o na oração dos monges, dos Padres, dos Apóstolos e da própria Virgem Maria, que o entregou de maneira particular a São Domingos. Este último é um clamoroso falso historiador, mas devemos reconhecer a habilidade de Alano, que impôs esta interpretação a toda a iconografia, e não só à iconografia.


Como passou o Rosário da fluidez ainda presente em Alano à estabilidade que conhecemos? Tratou-se de um processo ao mesmo tempo espontâneo e em estímulos convergentes nos quais agiram: certas preferências de Alano sobre os três grupos e sobre as 15 dezenas; o impulso unificador derivante da confraria; o uso do quadro e a exigência de um critério único de dispor os mistérios; a estabilização que sucede ao começo variado de qualquer experiência; a referência ao modo de lucrar as indulgências e, posteriormente, o clima da contra-reforma que tendia para a exatidão na oração.


Os mistérios são quase os atuais na xilografia de Francisco Domenech de 1488 e na área espanhola. Em Veneza, em 1521, Alberto de Castello publicava o Rosário da gloriosíssima Virgem Maria, mantendo 150 cláusulas, mas unindo a meditação com o Pater e denominando-a `mistério` e, por conseguinte, favorecendo a ordem atual. Deve notar-se que a publicação ainda considera o rosário uma oração visual, com 165 imagens, uma para cada Pater e Ave.


A intervenção de São Pio V foi principalmente a Bula Consueverunt (17/9/1569), na qual se lê que `o Rosário ou Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria` é uma `forma de oração` através da qual Maria ` é venerada com a Saudação Angélica repetida 150 vezes segundo o número dos Salmos de David, intercalando cada dez Ave com a oração do Senhor, com meditações que ilustram toda a vida do mesmo Senhor Jesus Cristo`. Para uma leitura correta é preciso notar que não apresenta o elenco dos mistérios; não são mencionadas as cláusulas, mas sim o Saltério; a meditação parece estar ligada ao Pater (segundo a fórmula precedente de Alberto de Castello) e estende-se a `toda` a vida de Cristo.


De Alano em diante, incluindo o Magistério, deve-se observar que por meditação se entende sempre mais a oração mental - da qual o esquema de repetir as palavras meditando - e menos a repetição ligada aos lábios, segundo a sentença: `os iustii meditabitur sapientiam / os lábios do justo meditam a sabedoria` (Sl 36, 30). Além disso, os documentos papais até Leão XIII, excluindo-o, descrevem o Rosário principalmente em função de determinar as suas indulgências. Por fim, a referência ao Saltério foi-se enfraquecendo cada vez mais, e após a morte de Alano a confraria de Colônia passava a obrigação das 150 fórmulas de diária para semanal e autorizava a divisão em cinqüenta.


A estabilização acima descrita acompanhará o Rosário até aos nossos dias, com a persistência das cláusulas na área anglossaxônica. O resto pertence a preciosismos destinados a não terem continuidade - como o Rosário místico dos dons excelentes e das graças que Deus deu à Bem-Aventurada Maria Madalena, do cartuxo Lanspergio (+ 1539) - ou a variáveis que não afetam a estrutura do Rosário, ou à história do seu uso pastoral. Paulo VI na MC 51 previa `exercícios de piedade que vão buscar a sua força ao Rosário`, mas que não alteravam a sua estrutura. A recente carta Apostólica RVM propõe novamente, refundindo-os de novo, alguns elementos de método (as cláusulas, mas não só) e de conteúdo (os mistérios da luz). Também isto já é história, mas nós ainda o vemos como atualidade.

FONTE:http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESCOLA&id=esc1009

MARIOLOGIA: IMACULADA CONCEIÇÃO

A IMACULADA CONCEIÇÃO

“Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

“Não foi Adão o seduzido, mas a mulher” (1Tm 2,14)

“Na plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho ao mundo nascido de uma mulher” (Gl 4,4).

No ponto central da história da salvação se dá um acontecimento ímpar em que entra em cena a figura de uma Mulher.; portanto, devia ser também por meio da mulher que a salvação chegasse à terra.

São Leão Magno, Papa do século V e doutor da Igreja, afirma:
“O antigo inimigo, em seu orgulho, reivindicava com certa razão seu direito à tirania sobre os homens e oprimia com poder não usurpado aqueles que havia seduzido, fazendo-os passar voluntariamente da obediência aos mandamentos de Deus para a submissão à sua vontade. Era portanto justo que só perdesse seu domínio original sobre a humanidade sendo vencido no próprio terreno onde vencera”.

O Senhor antecipou para Maria, a “bendita entre todas as mulheres”, a graça da Redenção que seu Filho conquistaria com Sua Paixão e Morte. A Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi o primeiro fruto da Redenção de Jesus. E Maria foi concebida no seio de sua mãe, Santa Ana, sem o pecado original.

Como disse o cardeal Suenens:
“A santidade do Filho é causa da santificação antecipada da Mãe, como o sol ilumina o céu antes de ele mesmo aparecer no horizonte”.

O cardeal Bérulle explica assim:
“Para tomar a terra digna de trazer e receber seu Deus, o Senhor fez nascer na terra uma pessoa rara e eminente que não tomou parte alguma no pecado do mundo e está dotada de todos os ornamentos e privilégios que o mundo jamais viu e jamais verá, nem na terra e nem no céu” (Temas Marianos, p. 307).

O Anjo Gabriel lhe disse na Anunciação: “Ave, cheia de graça...” (Lc 1,28). Nesse “cheia de graça”, a Igreja entendeu todo o mistério e dogma da Conceição Imaculada de Maria. Se ela é “cheia de graça”, mesmo antes de Jesus ter vindo ao mundo, é porque é desde sempre toda pura, bela, sem mancha alguma; isto é, Imaculada.

Em 8 de dezembro de 1854 o Papa Pio IX declarava dogma de fé a doutrina que ensinava ter sido a Mãe de Deus concebida sem mancha por um especial privilégio divino.

Na Bula “Ineffabilis Deus”, o Papa diz:
“Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual, por uma graça e um especial privilégio de Deus Todo Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original no primeiro instante de sua conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser crida firmemente e constantemente por todos os fiéis”.

Em 1476 a festa da Imaculada foi incluída no Calendário Romano. Em 1570, o papa Pio V publicou o novo Ofício e, em 1708, o papa Clemente XI estendeu a festa a toda a Cristandade tornando-a obrigatória.

S. Luiz de Montfort: “Neste seio virginal, Deus preparou o “paraíso do novo Adão” (TVD, n. 18).

Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja (†1787), disse:
“Maria tinha de ser medianeira de paz entre Deus e os homens. Logo, absolutamente não podia aparecer como pecadora e inimiga de Deus, mas só como Sua amiga, toda imaculada” (GM, p. 209). E ainda: “Maria devia ser mulher forte, posta no mundo para vencer a Lúcifer, e portanto devia permanecer sempre livre de toda mácula e de toda a sujeição ao inimigo” (GM, p. 209).

S. Bernardino de Sena (†1444): “Antes de toda criatura fostes, ó Senhora, destinada na mente de Deus para Mãe do Homem Deus. Se não por outro motivo, ao menos pela honra de seu Filho, que é Deus, era necessário que o Pai Eterno a criasse pura de toda mancha” (GM, p. 210).

S. Tomas de Vilanova († 1555), espanhol, disse:
“Nenhuma graça foi concedida aos santos sem que Maria a possuísse desde o começo em sua plenitude” (GM, p. 211).

S. Anselmo, bispo e doutor da Igreja († 1109):
“Deus, que pôde conceder a Eva a graça de vir ao mundo imaculada, não teria podido concedê-la também a Maria?”
“A Virgem, a quem Deus resolveu dar Seu Filho Único, tinha de brilhar numa pureza que ofuscasse a de todos os anjos e de todos os homens e fosse a maior imaginável abaixo de Deus” (GM, p. 212).

S. Afonso de Ligório afirma:
“O espírito mau buscou, sem dúvida, infeccionar a alma puríssima da Virgem, como infeccionado já havia com seu veneno a todo o gênero humano. Mas louvado seja Deus! O Senhor a previniu com tanta graça, que ficou livre de toda mancha do pecado. E dessa maneira pode a Senhora abater e confundir a soberba do inimigo” (GM p. 210).

Nenhum de nós pode escolher sua Mãe; Jesus o pode.
Pergunta S. Afonso: “Qual seria aquele que, podendo ter por Mãe uma rainha, a quisesse uma escrava? Por conseguinte, deve-se ter por certo que a escolheu tal qual convinha a um Deus” (GM, p. 213).

São Tomás de Aquino: “Quando Deus eleva alguém a uma alta dignidade, também o torna apto para exercê-la. Portanto tendo eleito Maria para Sua Mãe, por Sua graça a tornou digna de ser livre de todo o pecado, mesmo venial; caso contrário, a ignomínia da Mãe passaria para o Filho” (GM, p. 215).

S. Agostinho de Hipona, Bispo e doutor da Igreja (†430):
“Nem se deve tocar na palavra “pecado” em se tratando de Maria; e isso por respeito Àquele de quem mereceu ser a Mãe, que a preservou de todo pecado por sua graça” (GM, p. 215).

Maria é aquilo que disse o salmista:
“O Altíssimo santificou seu tabernáculo; Deus está no meio dele” (Sl 45,5); ou ainda: “A santidade convém à Vossa casa, Senhor” (Sl 42,6).

S. Cirilo de Alexandria (370-444), bispo e doutor da Igreja, pergunta:
“Que arquiteto, erguendo uma casa de moradia, consentiria que seu inimigo a possuísse inteiramente e habitasse?” (GM, p. 216). Assim Deus jamais permitiu que seu inimigo tocasse naquela em que Ele seria gerado homem.

S. Bernardino de Sena ensina que Jesus veio para salvar a todos, inclusive Maria. Contudo, há dois modos de remir: levantando o decaído ou preservando-o da queda. Este último modo Deus aplicou a Maria.

Se é pelo fruto que se conhece a árvore (Mt 7,16-20), então, como o Cordeiro foi sempre imaculado, sempre pura também foi Sua Mãe, é a conclusão dos santos.

Afirma S. Afonso: “Se conveio ao Pai preservar Maria do pecado, porque Lhe era Filha, e ao Filho porque Lhe era Mãe, está visto que o mesmo se há de dizer do Espírito Santo, de quem era a Virgem Esposa” (GM, p. 218).

S. Tomás: ”O Espírito Santo descerá sobre ti’ (Lc 1,35). Ela é portanto o templo do Senhor, o sacrário do Espírito Santo, porque por virtude dele se tornou Mãe do Verbo Encarnado”, (GM, p. 218).

Podendo o Espírito Santo criar Sua Esposa toda bela e pura, é claro que assim o fez. É dela que fala: “És toda formosa minha amiga, em ti não há mancha original” (Ct 4,7). Chama ainda Sua Esposa de “jardim fechado e fonte selada” (Ct 4,12), onde jamais os inimigos entraram para ofendê-la.

“Estão comigo um sem número de virgens, mas uma só é a minha pomba, minha imaculada” (Ct 6,8-9).

“Ave, cheia de graça!” Aos outros santos a graça é dada em parte, contudo a Maria foi dada em sua plenitude. Assim “a graça santificou não só a alma mas também a carne de Maria, a fim de que com ela revestisse depois o Verbo Eterno”, afirma S. Tomás (GM, p. 220).

O dogma da Imaculada Conceição de Maria é um marco fundamental da fé porque, entre outras coisas, define claramente a realidade do pecado original, às vezes contestado por alguns teólogos modernos, em discordância com o Magistério da Igreja.

O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“Na descendência de Eva, Deus escolheu a Virgem Maria para ser a Mãe de Seu Filho. ‘Cheia de graça’, ela é o fruto mais excelente da Redenção desde o primeiro instante de sua concepção; foi totalmente preservada da mancha do pecado original e permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo de sua vida” (§ 508).

A própria Virgem Maria, em pessoa, quis confirmar este dogma.

Em 27 de novembro de 1830, Nossa Senhora apareceu a S. Catarina Labouré, na Capela das filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, em Paris, e lhe pediu para mandar cunhar e propagar a devoção à chamada “Medalha Milagrosa”, precisamente com esta inscrição: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Quantas graças essa devoção tem espalhado pelo mundo!

Em 25 de março de 1858, na festa da Anunciação, revelou seu Nome a Santa Bernadette, mas aparições de Lourdes. Disse-lhe ela: “Eu sou a Imaculada Conceição”. (“Je suis le imaculé concepcion »). A partir daí, o padre Peyramale, que era o Cura de Lourdes, passou a acreditar nas aparições de Maria à pobre Bernadette, e com ele toda a Igreja.

Oração que os cristãos do Egito já lhe dirigiam no século III:
“Debaixo de vossa proteção nos refugiamos, ó Santa Mãe de Deus. Não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Maria, Imaculada, rogai por nós”.

Oração de São Bernardo (1090-1153), abade e doutor da Igreja, o poeta apaixonado de Maria, em seu famoso “Sermão sobre o Missus est”:
“Ó tu, quem quer que sejas, que nas correntezas deste mundo te apercebas: antes ser arrastado entre procelas e tempestades do que andando sobre a terra, desviares os olhos desta Estrela, se não queres afogar-te nessas águas.

Se se levantam os ventos das tentações, se cais nos escolhos dos grandes sofrimentos, olha a Estrela, invoca Maria. Se as iras, ou avareza, ou os prazeres carnais se abaterem sobre tua barca, olha para Maria.

Se, perturbado pelas barbaridades de teus crimes, se amedrontado pelo horror do julgamento, começas a ser sorvido em abismos de tristeza e desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, olha para a Estrela, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste de teus lábios, não se afaste de teu coração.

E, para que possas pedir o auxílio de sua oração, não esqueças o exemplo de sua vida. Seguindo-a, não te desviarás; suplicando-lhe, não desesperarás; pensando nela, não errarás. Se ela te segurar, não cairás; se te proteger, não terás medo; se ela te conduzir, não te fatigarás; se estiver do teu lado, chegarás ao fim. E assim experimentarás em ti mesmo quanto é verdade aquilo que foi dito: “E o nome da Virgem era Maria” .

MARIOLOGIA: A VIRGEM MARIA

A VIRGEM MARIA

1 - Dogma da Maternidade Divina – é Mãe de Deus

§495 – Denominada nos Evangelhos “a Mãe de Jesus” (Jo 2,1; 19,25; Mt 13, 55), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito, desde antes do nascimento de seu Filho, como “a Mãe de meu Senhor” (Lc 1,43). Com efeito, Aquele que ela concebeu do Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos, DS 251).

Maria – Predestinada a ser Mãe do Verbo encarnado

§488 – “Deus enviou Seu Filho” (Gl 4,4), mas para “formar-lhe um corpo” (Hb 10,5), quis a livre cooperação de uma criatura. Por isso, desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galiléia, “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26-27):

“Quis o Pai das misericórdias que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, uma mulher também contribuísse para a vida” (LG 56, 61).

Gen 3, 15 – “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar.”

S. Luiz de Montfort afirma: “Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e denominou-as Maria.

2 - Maria - Imaculada Conceição

§490 - Para ser a Mãe do Salvador , Maria “foi enriquecida por Deus com dons dignos para tamanha função” (LG 56). No momento da Anunciação o anjo Gabriel a saúda como “cheia de graça” (Lc 1,28).

§491 - Ao longo dos séculos a Igreja tomou consciência de que Maria, “cumulada de graça” por Deus (Lc 1,28 ), foi redimida desde a concepcão. É isto que confessa o dogma da Imaculada Conceição, proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX:

“A beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original” (DS 2803).

Os Padres da Tradição oriental chamam a Mãe de Deus “a toda santa” (“Pan-hagia”), celebram-na como “imune de toda mancha de pecado, tendo sido plasmada pelo Espírito Santo, e formada como uma nova criatura” (LG 53). Pela graça de Deus, Maria permaneceu pura de todo pecado pessoal ao longo de toda a sua vida.

3 – Dogma da Virgindade Perpétua

496 – Desde as primeiras formulações da fé (DS 10-64), a Igreja confessou que Jesus foi concebido exclusivamente pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, afirmando também o aspecto corporal deste evento: Jesus foi concebido “do Espírito Santo, sem sêmen” (Conc. de Latrão, DS 503). Os padres vêem na conceição virginal o sinal (Is 7,14) de que foi verdadeiramente o Filho de Deus que veio numa humanidade como a nossa:

Sto. Inácio de Antioquia (†107): “Estais firmemente convencidos acerca de Nosso Senhor, que é verdadeiramente da raça de Davi segundo a carne (Rm 1,3), Filho de Deus segundo a vontade e o poder de Deus (Jo 1, 3), verdadeiramente nascido de uma virgem... ele foi verdadeiramente pregado, na sua carne, [à cruz] por nossa salvação sob Pôncio Pilatos... ele sofreu verdadeiramente, como também ressuscitou verdadeiramente (Carta aos erminenses I-II)”.

“O que foi gerado nela vem do Espírito Santo”, diz o anjo a José acerca de Maria, sua noiva (Mt 1,20). A Igreja vê aí o cumprimento da promessa divina dada pelo profeta Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7,14, segundo a tradução grega de Mt 1,23).

“O príncipe deste mundo ignorou a virgindade de Maria e o seu parto, da mesma forma que a Morte do Senhor: três mistérios proeminentes que se realizaram no silêncio de Deus” (S. Inácio de Antioquia, Ad Eph. 19,1)

§499 – O aprofundamento de sua fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria (DS 427), mesmo no parto do Filho de Deus feito homem (DS 291;294; 442; 503;571; 1880). Com efeito, o nascimento de Cristo “não lhe diminuiu, mas sagrou a integridade virginal” de sua mãe (LG 57). A Liturgia da Igreja celebra Maria como a “Aeiparthenos” “sempre virgem” (LG 52).

Santo Agostinho: “Maria permaneceu Virgem concebendo seu Filho, Virgem ao dá-lo à luz, Virgem ao carregá-lo, Virgem ao amamentá-lo de seu seio, Virgem sempre” ( Serm.,186,1: PL 38, 999).

§500 – A isto objeta-se por vezes que a Escritura meninos irmãos e irmãs de Jesus (Mc 3, 31-35; 6,31; 1 Cor 9,5; Gl 1,19). A Igreja sempre entendeu que essas passagens não designam outros filhos da Virgem Maria: com efeito, Tiago e José, “irmãos de Jesus” (Mt 13,55), são os filhos de uma Maria (de Cléofas) discípula de Cristo (Mt 27, 56) que significativamente é designada como “a outra Maria” (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos de Jesus, consoante uma expressão conhecida do Antigo Testamento (Gn 13,8; 14,16; 29,15, etc.).

§503 – A virgindade de Maria manifesta a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação. Jesus tem um só Pai: Deus (Lc 2, 48-49).

Maria respondeu com a “obediência da fé” (Rm 1,5 ), certa que “nada é impossível a Deus”: “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc 1,37-38 ).

S. Ireneu, “obedecendo, se fez causa de salvação, tanto para si quanto para todo o gênero humano” (Adv. haer. 3, 22,4).

“O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva ligou pela incredulidade, a virgem Maria desligou pela fé” (idem). Comparando Maria com Eva chamam-na de “mãe dos viventes”; e com frequência afirmam: “veio a morte por Eva e a vida por Maria” (LG 56).

4 – Dogma da Assunção ao Céu

§974 – Depois de encerrar o curso de sua vida terrestre, a Santíssima Virgem Maria foi elevada em corpo e alma à glória do Céu, onde já participa da glória da ressurreição do seu Filho, antecipando a ressurreição de todos os membros de seu corpo.

§966 - “Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste. E, para que mais plenamente estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como Rainha do universo” (LG 59; Pio XII, proclamação do dogma da Assunção, em 1950).

A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos:

“Em vosso parto, guardaste a virgindade, na vossa dormição não deixastes o mundo, ó mãe de Deus: fostes juntar-vos à fonte da vida, vós que concebestes o Deus vivo e, por vossas orações, livrareis as nossas almas da morte” (Liturgia bizantina, Tropário da festa da Dormição).

5 - Maria - Mãe na ordem da graça

§968 - “De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por este motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça” (LG 61).

§969 - “Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas por sua múltlipa intercessão prossegue em granjear-nos os dons da salvação eterna. (...) Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, protetora, medianeira” (LG 62).

6 - Maria - medianeira das graças

§970 - “A missão materna de Maria em favor dos homens de modo algum obscurecem nem diminuiu a mediação única de Cristo; pelo contrário, até ostenta sua potência, pois todo o salutar influxo da bem-aventurada Virgem (...) deriva dos superabundantes méritos de Cristo, estriba-se na sua mediação, dela depende inteiramente e dela aufere toda a sua força” (LG 60).

“Com efeito, nenhum criatura jamais pode ser colocada no mesmo plano que o Verbo encarnado e Redentor. Mas da mesma forma que o sacerdócio de Cristo é participado de vários modos seja pelos ministros seja pelo povo fiel, e da mesma forma que a indivisa bondade de Deus é realmente difundida das criaturas de modos diversos, assim também a única mediação do Redentor não exclui, senão que antes suscita nas criaturas uma variegada cooperação que participa de uma única fonte” (LG 62).

“Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo” (Credo do Povo de Deus, Paulo VI, 15)

Santo Afonso de Ligório :
“Deus quer que pelas mãos de Maria nos cheguem todas as graças... A ninguém isso pareça contrário à sã teologia. Pois Santo Agostinho, autor dessa proposição, estabelece como sentença, geralmente aceita, que Maria tem cooperado por sua caridade para o nascimento espiritual de todos os membros da Igreja” (GM, p. 15).

São Bernardo :
“Tal é a vontade de Deus que quis que tenhamos tudo por Maria. Se, portanto, temos alguma esperança, alguma graça, algum dom salutar, saibamos que isto nos vem por suas mãos”.

“Eras indigno de receber as graças divinas: por isso foram dadas a Maria a fim de que por ela recebesses tudo o que terias” (idem).

São Bernardino de Sena:
“Todos os dons virtudes e graças do Espírito Santo são distribuídos pelas mãos de Maria, a quem ela quer, quando quer, como quer, e quanto quer” (Tvd, p. 137).

Santo Efrém, († 373):
“Minha Santíssima Senhora, Santa Mãe de Deus, cheia de graças e favores divinos, Distribuidora de todos os bens! Vós sois, depois da Santíssima Trindade, a Soberana de todos; depois do Medianeiro, a Medianeira do Universo, Ponte do mundo inteiro para o céu. Olhai benigna para minha fé e meu desejo que me foram inspirados por Deus” (VtMM, p. 97).

São Boaventura (1218-1274), bispo e doutor da Igreja:
“Deus depositou a plenitude de todo o bem em Maria, para que nisto conhecêssemos que tudo que temos de esperança, graça e salvação, dela deriva até nós” (VtMM, p. 101).

Santo Alberto Magno:
“É anunciada à Santíssima Virgem tal plenitude de graça, que se tornou por isso a fonte e o canal de transmissão de toda a graça a todo o gênero humano” (idem).

São Pedro Canísio (1521-1597), doutor da Igreja:
“O Filho atenderá Sua Mãe e o eterno Pai ouvirá Seu próprio Filho: eis o fundamento de toda nossa esperança” (idem).

São Roberto Belarmino (1542-1621), bispo e doutor da Igreja:
“Todos os dons, todas as graças espirituais que por Cristo, como cabeça, descem para o corpo, passam por Maria que é como o colo desse corpo místico” (VtMM, p. 102).

São Luiz Monfort:

“Reconhecemo-nos indignos e incapazes de, por nós mesmos, aproximar-nos de Sua Majestade infinita; e por isso servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem. Além disso é uma prática de grande humildade, virtude que Deus ama acima de todas as outras.

7 - Maria – Mãe da Igreja

§964 - “A bem-aventurada Virgem avançou na sua peregrinação de fé, manteve fielmente sua união com seu Filho até à cruz, onde esteve presente não sem desígnio divino, sofreu intensamente junto com seu unigênito. E com ânimo materno se associou ao seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima por ela gerada. Finalmente, pelo próprio Jesus moribundo na cruz foi dada como mãe ao discípulo com estas palavras: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26-27)” (LG 58).

8 - Maria – seu Culto na Igreja

§971 - “Todas as gerações me chamarão bem aventurada”(Lc 1,48). “A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão” (MC 56).

A Santíssima Virgem “é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja [hiper dulia]. Com efeito, desde os remotíssimos tempos a bem aventurada Virgem é venerada sob o título de ‘Mãe de Deus’ sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os seus perigos e necessidades. (...) Este culto (...)embora seja inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encarnado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas favorece poderosamente” (LG 66) este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus (SC 103) e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, resumo de todo o Evangelho” (MC 42).

Coroa de Glórias da Virgem Maria – S. Luiz de Montfort

Credo, Pai Nosso
1 – Imaculada Conceição
2 – Virgem Perpétua
3 – Mãe de Deus
4 – Filha Predileta do Pai

Pai Nosso
5 – Esposa do Espírito Santo
6 – A mais humilde a quem Jesus se submeteu
7 – Esmaga a cabeça da Serpente
8 – Medianeira de todas as graças

Pai Nosso
9- Aos pés da Cruz; mãe da Igreja
10 – Assunta ao Céu
11 – Coroada no Céu como Rainha
12 – Por todas as honras e glórias mais numerosas que as estrelas
Os sete dons do Espírito Santo
OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

Em síntese: Os dons do Espírito Santo são como “receptores” aptos a captar os impulsos do Espírito mediante os quais o cristão se encaminha para a perfeição em estilo novo ou com a eficácia que o próprio Deus lhe confere. Possibilitam ao cristão ter a intuição profunda do significado das verdades reveladas por Deus assim como de cada criatura. Proporcionam também tomadas de atitude que nem a razão natural nem as virtudes humanas, sujeitas sempre a hesitações e falhas, conseguiriam indicar ou efetivar.Para ilustrar o que são os dons, pode-se recorrer à imagem de um barco que navega: se é movido a remos, avança lenta e penosamente, com grande esforço para os remadores. Caso, porém, estes desdobram as velas do barco para que capte o sopro dos ventos favoráveis, os remadores descansam e o barco progride em estilo novo segundo velocidade “sobre-humana”. - Ora o barco movido ao sopro do vento que bate contra as velas, é imagem do cristão impelido pelo Espírito, segundo medidas divinas, para a meta da sua santificação.Os dons do Espírito Santo são sete, segundo a habitual recensão dos teólogos: sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade, temor de Deus. Para se beneficiar da ação do Espírito Santo, o cristão deve dispor-se de duas maneiras principais: a) cultivando o amor, pois é o amor que propicia afinidade com Deus e, por conseguinte, torna o cristão apto a ser movido pelo Espírito de Deus; b) procurando jamais dizer um Não consciente e voluntário às inspirações do Espírito. Quem se acostuma a viver assim, cresce mais velozmente na sua estatura definitiva e se configura mais fielmente ao Cristo Jesus.* * *Em nossos dias a renovação da oração e da espiritualidade cristãs apela freqüentemente para a ação do Espírito Santo nos corações. Muitos fiéis se tornam conscientes de que “ninguém pode dizer “Jesus Cristo é o Senhor” senão sob a moção do Espírito Santo” (cf. 1Cor 12, 3), sabem cada vez mais que “todos os que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus" (cf. Rm 8, 14). A consciência destas verdades vem despertando cada vez mais a atenção para a teologia espiritual. É, pois, oportuno procurarmos conhecer melhor as maneiras como o Espírito Santo age nos corações, descrevendo os seus dons e o significado destes na vida dos filhos de Deus.1. Que são os dons do Espírito Santo?1. Do inicio, é preciso propor a distinção que a Teologia costuma fazer entre dons e carismas (embora a palavra charisma em grego significa dom).Por carismas entendem-se graças especiais pelas quais o Espírito Santo torna os cristãos aptos a tarefas e funções que contribuem para o bem ou o serviço da comunidade: assim seriam o dom de profecia, o das curas, o das línguas, o da interpretação das línguas... Os carismas têm por vezes (não sempre) índole extraordinária, como no caso de certas curas ou da glossolalia.Por dons compreendem-se faculdades outorgadas ao cristão para seguir mais seguramente os impulsos do Espírito no caminho da perfeição espiritual. Os dons e seus efeitos são discretos, não chamando a atenção do público por façanhas portentosas.2. Para entender melhor o que sejam os dons do Espírito, recorramos a uma analogia:Quando uma criança nasce para a vida presente, é dotada por Deus de tudo que é necessário à sua existência humana: recebe, sim, um organismo completo e uma alma portadora de faculdades típicas do ser humano. Como se compreende, esse conjunto ainda não esta plenamente desenvolvido quando o bebê vem ao mundo, mas é certo que a criança possui tudo que constitui a pessoa humana.Ora algo de análogo se dá na vida espiritual. Diz-nos Jesus que renascemos da água e do Espírito Santo pelo batismo (cf. Jo 3, 5). Este renascer importa receber uma vida nova, a vida dos filhos de Deus, trazida pela graça santificante. Essa vida nova tem suas faculdades próprias, que são:1) as virtudes infusasa) teologais (fé, esperança, caridade): virtudes que nos põem em contato imediato com Deus;b) morais (prudência, justiça, temperança, fortaleza): virtudes que orientam o comportamento do cristão frente aos valores deste mundo;2) os dons do Espírito Santo, "receptáculos" próprios para captar as moções do Espírito Santo.Importa salientar bem a diferença entre as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo.As virtudes infusas são ditas infusas porque não adquiridas pelo homem. São princípios de reta outorgados ao cristão juntamente com a graça santificante, para que se comporte não apenas como ser racional, mas como filho da Deus, elevado a ordem sobrenatural1. Os critérios de conduta do cristão são as grandes verdades da fé ou da ordem sobrenatural (que nem sempre coincidem com os da razão); por isto é que, ao renascer como filho de Deus, todo homem recebe os respectivos princípios de conduta nova, que são as virtudes infusas. Destas, três se orientam diretamente para Deus (a fé, a esperança e a caridade) e quatro se orientam para o reto uso dos bens deste mundo (prudência, justiça, temperança, fortaleza). Quando o cristão age mediante as virtudes infusas, é ele mesmo quem age segundo moldes humanos, limitados, lutando contra os obstáculos que geralmente a prática do bem encontra; de maneira lenta e trabalhosa o cristão cresce na fé, na caridade, na temperança, na fortaleza..., estando sempre sujeito a contradizer-se ou a cometer um ato incoerente com tais virtudes.É sobre este fundo de cena que se devem entender os dons do Espírito Santo. Estes podem ser comparados a faculdades novas ou “antenas” que nos permitem apreender moções do Espírito Santo em virtude das quais agimos segundo um estilo novo, certeiro, firme, sem hesitação alguma e com toda a clarividência. Esta afirmação pode-se tornar mais clara mediante algumas comparações:a) Imaginemos um barco que navega a remos... Adianta-se lentamente e com grande esforço e fadiga por parte dos remadores. Caso, porém, este barco tenha velas dobradas, admitamos que os remadores resolvam desdobrá-las, a fim de captar o vento que lhes é favorável. Em conseqüência, os marujos deixarão de remar, e o mesmo barco será movido a velocidade “sobre-humana”, de maneira nova a muito mais veloz do que quando movido a remos.Ora o "mover-se a remos" corresponde ao esforço humano (sempre prevenido pela graça) para progredir na prática do bem mediante as virtudes infusas. O “deixar-se mover pelo vento que bate nas velas desdobradas", corresponde ao progresso provocado pela ação direta do Espírito Santo, que move os seus dons (= velas) em nós; progredimos então muito mais rapidamente segundo um estilo novo.b) Eis outra comparação: admitamos um pintor genial que se dispõe a realizar uma obra-mestra. Para iniciar, ele confia aos discípulos mais adiantados o trabalho de preparar a tela, combinar as cores e esquematizar o quadro. Quando tudo está preparado e começa a parte mais importante da obra, o próprio mestre traça as linhas finíssimas de sua obra, revelando o seu gênio e cristalizando a sua inspiração. - De maneira análoga, o Espírito traça no íntimo de cada cristão a imagem do Cristo Jesus. Os inícios desta tarefa, Ele os realiza mediante a nossa colaboração, permitindo-nos agir segundo os nossos moldes humanos (ou mediante as virtudes infusas). Quando, porém, se trata dos traços mais típicos do Cristo na alma humana, o próprio Espírito assume a tarefa da os delinear utilizando instrumentos especialmente finos a preciosos, que são seis dons.Exemplificando, diremos: o homem prudente que, para a orientação de seus atos, só dispusesse de suas qualidades naturais e da virtude infusa da prudência, acertaria realmente, mas com grande lentidão, depois de várias tentativas. A prudência humana é insegura e tímida, mesmo quando acerta. - Ao contrário, quem age sob o influxo do dom do conselho, que corresponde à virtude da prudência, descobre de maneira rápida, certeira e firme o que deve fazer em cada caso.Eis outro exemplo: quando o cristão se eleva, pela luz da fé, ao conhecimento de Deus, ele o faz de maneira imperfeita e laboriosa, recorrendo a imagens que são, ao mesmo tempo, claras e obscuras. - Dado, porém, que o cristão seja movido pelo Espírito mediante os dons de sabedoria e inteligência, ele contempla Deus e seu plano salvífico numa lúcida concatenação de idéias em poucos instantes e com grande sabor espiritual (em vez dos esforços exigidos pela virtude da fé).As normas das virtudes são diferentes das normas dos dons. Quem age sob o influxo das virtudes, segue a norma do homem iluminado pela luz de Deus. Mas quem age sob o influxo dos dons do Espírito, segue a norma do próprio Deus participada ao homem.3. Note-se que os dons do Espírito não são privilégio dos santos. Todos os cristãos os recebem no Batismo. Nem são necessários apenas às grandes obras, mas tornam-se indispensáveis à santificação do cristão mesmo na vida cotidiana.O cristão pode permitir cada vez mais a ação do Espírito Santo em sua vida mediante os dons, caso se dedique especialmente ao cultivo das virtudes (principalmente da caridade) e se torne mais e mais dócil às inspirações do Espírito Santo. A prática do amor é importante, pois é o amor que nos comunica particular afinidade com Deus, adaptando-nos ao modo de agir do próprio Deus.Procuramos agora penetrar no sentido próprio de cada um dos dons do Espírito.2. Os dons em particularA Tradição cristã costuma enunciar sete dons do Espírito, baseando-se no texto de Is 11,1-3 traduzido para o grego na versão dos LXX:"(1)Brotará uma vara do tronco de JesséE um rebento germinará das suas raízes.(2)E repousará sobre ele o espírito do Senhor:Espírito de sabedoria e entendimento,Conselho e fortaleza,Ciência e temor de Deus,(3)Piedade..."O texto original hebraico, em lugar de piedade, dá a ler; "Sua inspiração estará no temor do Senhor". Enumerando seis ou sete dons do Espírito, o texto bíblico não tenciona esgotar a realidade dos mesmos: estes são tantos quantos se fazem necessários para que o Espírito leve o cristão à perfeição definitiva. Os sete dons enumerados pelo texto dos LXX e pela Tradição vêm a ser, sem dúvida, os principais. Distingamo-los de acordo com a faculdade humana em que cada qual se situa:Intelecto: ciência, entendimento, sabedoria, conselho.Vontade: piedade.Apetite irascível: fortaleza.Apetite de cobiça: temor de Deus.Passemos agora à análise de cada qual de per si.2.1. CiênciaA ciência humana perscruta o universo e seus fenômenos, procurando as causas imediatas destes e concatenando-as entre si para ter uma explicação mais ou menos clara da realidade.Ora o dom da ciência, embora não defina a natureza e as propriedades físicas ou químicas de cada criatura, faz que o cristão penetre na realidade deste mundo sob a luz de Deus, vê cada criatura como reflexo da sabedoria do Criador e como aceno ao Supremo Bem.Mais: o dom da ciência leva o homem a compreender, de um lado, o vestígio de Deus que há em cada ser criado, e, de outro lado, a exigüidade ou insuficiência de cada qual.Vestígio de Deus... São Francisco de Assis soube ouvir e proclamar o canto das criaturas ao Senhor. As flores, as aves, a água, o fogo, o sol... tudo lhe era ocasião de contemplar e amar a Deus.Exigüidade... Toda criatura, por mais bela que seja, é sempre limitada e insuficiente para o coração humano. Este foi feito para o Bem infinito e só neste pode repousar. Percebendo isto após uma vida leviana, muitos homens e mulheres se converterem radicalmente a Deus. Tal foi o caso de S. Francisco Borja (+ 1572), que ao contemplar o cadáver da rainha Isabel, exclamou: "Não voltarei a servir a um senhor que possa morrer!" Tal foi outrossim o caso de S. Silvestre (+ 1267)... Estes cometeram a "loucura" de tudo deixar a fim de possuir mais plenamente uma só coisa: o Reino de Deus ou a presença do próprio Deus.O dom da ciência ensina também a reconhecer melhor o significado do sofrimento e das humilhações; estes “contra-valores”, no plano de Deus, têm o valor de escola que liberta e purifica o homem. Configuram o cristão a Jesus Cristo, concedendo-lhe um penhor de participação na glória do próprio Senhor Jesus. Se não fora o sofrimento, muitos e muitos homens não sairiam de sua estatura anã e mesquinha,... nunca atingiriam a plenitude do seu desenvolvimento espiritual.São estes alguns dos frutos do dom da ciência.2.2. Entendimento ou inteligênciaA palavra “inteligência” é, segundo alguns, derivada de intellegere = intuslegere, ler dentro, penetrar a fundo.Na ordem natural, entendemos (intelligimus) quando captamos o âmago de alguma realidade. Na linha da fé, paralelamente entender é penetrar, ler no íntimo das verdades reveladas por Deus, é ter a intuição do seu significado profundo. Pelo dom do entendimento, o cristão contempla com mais lucidez o mistério da SS. Trindade, o amor do Redentor para com os homens, o significado da S. Eucaristia na vida cristã....A penetração outorgada pelo dom da inteligência (ou do entendimento) difere daquela que o teólogo obtém mediante o estudo; esta é relativamente penosa e lenta; além do que, pode ser alcançada por quem tenha acume intelectual, mesmo que não possua grande amor. Ao contrário, o dom da inteligência é eficaz mesmo sem estudo; é dado aos pequeninos e ignorantes, desde que tenham grande amor a Deus.Para ilustrá-lo, conta-se que um irmão leigo franciscano disse certa vez a S. Boaventura (+ 1274), o Doutor Seráfico: “Felizes vós, homens doutos, que podeis amar a Deus muito mais do que nós, os ignorantes!” Respondeu-lhe Boaventura: “ Não é a doutrina alcançada nos livros que mede o amor, uma pobre velha ignorante pode amar a Deus mais do que um grande teólogo, se estiver unida a Deus”. O irmão compreendeu a lição e saiu gritando pelas ruas: “Velhinha ignorante, você pode amar a Deus mais do que o mestre Frei Boaventura!”O irmão dizia a verdade. Na ordem natural, é compreensível que o amor brote do conhecimento. Na ordem sobrenatural, porém, pode acontecer o inverso: é o amor que abre os olhos do conhecimento. Os que mais amam a Deus, são os que mais profundamente dissertam sobre Ele.Como frutos do dom do entendimento, podemos enunciar as intuições das verdades da fé que são concedidas a muitos cristãos durante o seu retiro espiritual ou no decurso de uma leitura inspirada pelo amor a Deus. O “renascer da água e do Espírito", a imagem da videira e dos ramos, o “seguir a Cristo” tomam então clareza nova, apta a transformar a vida do cristão.O dom do entendimento manifesta também o horror do pecado e a vastidão da miséria humana. Por mais paradoxal que pareça, é preciso observar que os santos, quanto mais se aproximaram de Deus (ou quanto mais foram santos), tanto mais tiveram consciência do seu pecado ou da sua distância daquele que é três vezes santo.Em suma, o dom do entendimento faz ver melhor a santidade de Deus, a infinidade do seu amor, o significado dos seus apelos e também... a pobreza, não raro mesquinha, da criatura que se compraz em si mesma, em vez de aderir corajosamente ao Criador.2.3. O dom da sabedoriaNa ordem natural do conhecimento, a inteligência humana não se contenta com noções isoladas, mas procura reunir suas concepções numa síntese sistemática, de modo a concatená-las numa visão harmoniosa. A mente humana procura atingir os primeiros princípios e as causas supremas de toda a realidade que ela conhece.Ora a mesma sistematização harmoniosa ocorre também na ordem sobrenatural. O dom da ciência e o entendimento já proporcionam uma penetração profunda no significado de cada criatura e de cada verdade revelada respectivamente; oferecem também uma certa síntese dos objetos contemplados, relacionando-os com o Supremo Senhor, que é Deus. Todavia o dom que, por excelência, efetua essa síntese harmoniosa e unitária, é o da sabedoria. Esta abrange todos os conhecimentos do cristão e os põe diretamente sob a luz de Deus, mostrando a grandeza do plano do Criador e a insondabilidade da vida daquele que é o Alfa e o Ômega de toda a criação.Mais: o dom da sabedoria não realiza a síntese dos conhecimentos da fé em termos meramente intelectuais. Ele oferece um conhecimento sápido ou saboroso da verdade1 ...Saboroso ou deleitoso, porque se deriva da experiência do próprio Deus feita pelo cristão ou da afinidade que o cristão adquire com o Senhor pelo fato de mais a mais amar a Deus. Uma comparação ajudará a compreender tal proposição: para conhecer o sabor de uma laranja, posso consultar, intelectual e cientificamente, os tratados de Botânica; terei assim uma noção aproximada do que seja esse sabor. Mas a melhor via para conseguir o objetivo será, sem dúvida, a experiência da própria laranja que se faz pelo paladar. Os resultados do estudo meramente intelectual são frios e abstratos, ao passo que as vantagens da experiência são concretas e saborosas.Ora, na verdade, os dons da ciência e do entendimento fazem-nos conhecer principalmente por via de amor ou de afinidade com Deus. Todavia é o dom da sabedoria que, por excelência, resulta dessa conaturalidade ou familiaridade com o Senhor. Ele se exerce na proporção da íntima união que o cristão tenha com o Senhor Deus. “O dom da sabedoria faz-nos ver com os olhos do Bem-amado”, dizia um grande místico; a partir da excelsa atalaia que é o próprio Deus, contemplamos todas as coisas quando usamos o dom da sabedoria.Estas verdades dão a ver quanto nesta vida importa o amor de Deus. É este que propicia o conhecimento mais perspicaz e saboroso do mesmo Deus (o que não quer dizer que se possa menosprezar o estudo, pois, se o Criador nos deu a inteligência, foi para que a apliquemos à verdade por excelência, que é Deus). Aliás, observam muito a propósito os teólogos: veremos a Deus face-a-face por toda a eternidade na proporção do amor com que o tivermos amado nesta vida. O grau do nosso amor, na hora da morte, será o grau da nossa visão de Deus na vida eterna ou por todo o sempre. É por isto que se diz que o amor é o vínculo ou o remate da perfeição (cf. Cl 3, 14). “No ocaso de sua vida, cada um de nós será julgado na base do amor”, diz S. João da Cruz.2.4. ConselhoAfirmam os teólogos que Deus não deixa faltar às suas criaturas o que lhes é necessário, nem é propenso a dons supérfluos, pois Deus tudo faz com número, peso e medida (cf. Sb 11, 20). Em tudo resplandece a sua sabedoria. Por isto é que Deus é providente, ou seja, Ele providencia os meios para que cada criatura chegue retamente ao seu fim devido.Ora acontece que, para realizarmos determinada atividade, exercemos um processo mental que tem por objetivo examinar cuidadosamente não só a conveniência dessa atividade, mas também todas as circunstâncias em que ela se deve desenrolar. Muitas vezes esse processo se efetua sem que dele tomemos plena consciência. Quanto, porém, nos vemos diante de uma tarefa rara ou mais exigente do que as de rotina, o processo deliberativo é mais intenso e, por isto, se torna mais consciente; a mente se esforça por ver claro e fazer a opção mais adequada, sem que, porém, o consiga de imediato. Não raro é necessário recorrer ao conselho de outra pessoa mais experimentada.É por efeito da virtude (natural e infusa) da prudência que cada cristão delibera sobre o que deve e não deve fazer. É a prudência que avalia os meios em vista do respectivo fim.Pois bem. Em correspondência à virtude da prudência, existe um dom do Espírito Santo, chamado “dom do conselho”. Este permite ao cristão tomar as decisões oportunas sem a fadiga e a insegurança que muitas vezes caracterizam as deliberações da virtude da prudência. Esta por si não basta para que o cristão se comporte à altura da sua vocação de filho de Deus,... vocação que exige simultaneamente grande cautela ou circunspecção e extrema audácia ou coragem. Nem sempre a virtude humana entrevê nitidamente o modo de proceder entre polos antitéticos. A criatura, limitada como é, nem sempre consegue conhecer adequadamente o momento presente, menos ainda é apta a prever o futuro e – ainda – sente dificuldade em aplicar os conhecimentos do passado à compreensão do presente e ao planejamento do futuro. É preciso, pois, que o Espírito Santo, em seu divino estilo, lhe inspire a reta maneira de agir no momento oportuno e exatamente nos termos devidos.Assim o dom do conselho aparece como um regente de orquestra que coordena divinamente todas as faculdades do cristão e as incita a uma atividade harmoniosa e equilibrada. Imagine-se com que circunspecção (cautela e audácia) um maestro rege os múltiplos instrumentos de sua orquestra: assinala a cada qual o momento preciso em que deve entrar e os matizes que deve dar à sua melodia. Assim faz o Espírito mediante o dom do conselho em cada cristão.Diz a Escritura que há um tempo exato para cada atividade1;fora desse momento preciso, o que é oportuno pode tornar-se inoportuno.Ora nem sempre é fácil discernir se é oportuno falar ou calar, ficar ou partir, dizer Sim ou dizer Não. Nem as pessoas prudentes, após muito refletir, conseguem definir com segurança o que convém fazer. Ora é precisamente para superar tal dificuldade que o Espírito move o cristão mediante o dom do conselho.2.5. PiedadeTodo homem é chamado a viver em sociedade, relacionando-se com Deus e com os seus semelhantes. Requer-se que esse relacionamento seja reto ou justo. Por isto a virtude da justiça rege as relações de cada ser humano, assumindo diversos nomes de acordo com o tipo de relacionamento que ela deve orientar: é justiça propriamente dita, sempre que nos relacionamos com aqueles a quem temos uma dívida rigorosa; a justiça se torna religião desde que nos voltemos para Deus; é piedade, se nos relacionamos com nossos pais, nossa família ou nossa pátria; é gratidão, em relação aos benfeitores.Ora há um dom do Espírito que orienta divinamente todas as relações que temos com Deus e com o próximo, tornando-as mais profundas e perfeitas: é precisamente o dom da piedade. São Paulo implicitamente alude a este dom quando escreve: “Recebestes o espírito de adoção filial, pelo qual bradamos: “Abá, ó Pai” (Rm 8, 15).
O Espírito Santo, mediante o dom da piedade, nos faz, como filhos adotivos, reconhecer Deus como Pai.E, pelo fato de reconhecermos Deus como Pai, consideramos as criaturas com olhar novo, inspirado pelo mesmo dom da piedade..Examinemos de mais perto os efeitos do dom da piedade.Frente a Deus ele nos leva a superar as relações de “dar e receber” que caracterizam a religiosidade natural; leva a não considerar tanto os benefícios recebidos da parte de Deus, mas, muito mais, o fato de que Deus é sumamente santo e sábio: “Nós vos damos graças por vossa grande glória”, diz a Igreja no hino da Liturgia eucarística; é, sim, próprio de um filho olhar a honra e a glória de seu pai, sem levar em conta os benefícios que ele possa receber do mesmo. É o dom da piedade que leva os santos a desejar, acima de tudo, a honra e a glória de Deus “... para que em tudo seja Deus glorificado”, diz São Bento, ao passo que S. Inácio de Loiola exclama: “... para a maior glória de Deus”. É também o dom da piedade que desperta no cristão viva e inabalável confiança em Deus Pai,... confiança e entrega das quais dá testemunho S. Teresinha de Lisieux na sua doutrina sobre a infância espiritual.O dom de piedade não incita os cristãos apenas a cumprir seus deveres para com Deus de maneira filial, mas leva-os também a experimentar interesse fraterno para com todos os seus semelhantes. Típico exemplo deste sentimento encontra-se na vida de S. Francisco de Assis: quando este, certo dia, sonhando com as glórias de um cavaleiro medieval, avistou um leproso, sentiu-se impelido a superar qualquer repugnância e a dar-lhe o ósculo que exprimia a fraternidade de todos os homens entre si.O dom de piedade, tornando o cristão consciente de sua inserção na família dos filhos de Deus, move-o a ultrapassar as categorias do direito e do dever, a fim de testemunhar uma generosidade que não regateia nem mede esforços desde que sirva aos irmãos. É o que manifesta o Apóstolo ao escrever: “Quanto a mim, de bom grado me despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor” (2Cor 12, 15).2.6. FortalezaA fidelidade à vocação cristã depara-se com obstáculos numerosos, alguns provenientes de fora do cristão; outros, ao contrário, do seu íntimo ou das suas paixões. Por isto diz o Senhor que “o Reino dos céus sofre violência dos que querem entrar, e violentos se apoderam dele” (Mt 11, 12).Ora, em vista da necessidade de coragem e magnanimidade que incumbe ao cristão, o Espírito lhe dá o dom da fortaleza. Esta nem sempre consiste em realizar vultosas e admiradas pelo público, mas não raro implica paciência, perseverança, tenacidade, magnanimidade silenciosas... Pelo dom da fortaleza, o Espírito impele o cristão não apenas àquilo que as forças humanas podem alcançar, mas também àquilo que a força de Deus atinge. É essa força de Deus que pode transformar os obstáculos em meios; é ela que assegura tranqüilidade e paz mesmo nas horas mais tormentosas. Foi ela que inspirou a S. Francisco de Assis palavras tão significativas quanto estas: “Irmão Leão, a perfeita alegria consiste em padecer por Cristo, que tanto quis padecer por nós”.2.7. Temor de DeusPara entender o significado desde dom, distingamos diversos tipos de temor: a) o temor covarde ou da covardia; b) o temor servil ou do castigo; c) o temor filial. Este consiste na repugnância que o cristão experimenta diante da perspectiva de poder-se afastar de Deus; brota das próprias entranhas do amor. Não se concebe o amor sem este tipo de temor.Com outras palavras: as virtudes afastam, sim, o cristão do pecado, ajudando-o a vencer as tentações. Isto, porém, acontece através de lutas, hesitações e, não raro, deficiências. Ora pelo dom do temor de Deus a vitória é rápida e perfeita, pois então é o Espírito que move o cristão a dizer Não à tentação.O dom do temor de Deus se prende inseparavelmente à virtude da humildade. Esta nos faz conhecer nossa miséria; impede a presunção e a vã glória, e assim nos torna conscientes de que podemos ofender a Deus; daí surge o santo temor de Deus. O mesmo dom também se liga à virtude da temperança; esta modera a concupiscência e os impulsos desordenados do coração; com ela converge o temor de Deus, que, por impulso de ordem superior, modera os apetites que poderiam ofender a Deus.Os santos deram provas sensíveis de santo temos de Deus. Tenha-se em vista S. Luís de Gonzaga, que, conforme se narra, derramou copiosas lágrimas certa vez quando teve que confessar suas faltas,... faltas que, na verdade, dificilmente poderiam ser tidas como pecados. Para o santo, essas pequeninas faltas eram sinais do perigo de poder um dia afastar-se de Deus. Ora, para quem ama, qualquer perigo deste tipo tem importância.Eis, em grandes linhas, o significado dos dons do Espírito Santo na vida cristã. São elementos valiosos para o progresso interior, elementos que o Espírito mais e mais utiliza, se o cristão procura amar realmente a Deus e ao próximo e jamais dizer um Não consciente às inspirações da graça.(1) Sobrenatural não quer dizer portentoso ou maravilhoso, mas designa o que ultrapassa as exigências de qualquer natureza criada,... o que é dado gratuitamente por Deus. É sobrenatural, portanto, a elevação do homem à filiação divina ou à comunhão de vida com o próprio Deus a fim de chegar à visão de Deus face-a-face.(1) A palavra sabedoria vem do saber, derivado do verbo latino sapere, que significa “ter gosto de...” – O vocábulo português sabor se origina do latino sapor, que é da mesma raiz que sapere”.(1) Eis o texto de Ecl 3, 1-8:“Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora.Há tempo para nascer, e tempo para morrer.Tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou.Tempo para matar, e tempo para dar vida.Tempo para destruir, e tempo para edificar.Tempo para chorar, e tempo para rir.Tempo para se afligir, e tempo para dançar.Tempo para espalhar pedras, e tempo para as ajuntar.Tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles.Tempo para adquirir, e tempo para perder.Tempo para guardar, e tempo para atirar fora.Tempo para rasgar, e tempo para coser.Tempo para calar, e tempo para falar.
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