08 maio 2009

DOMINUS IESUS: sobre a Unicidade e a Universalidade Salvífica de Jesus Cristo e da Igreja!!! É SÓ LER!!!

Declaração Dominus Iesus sobre a Unicidade e a Universalidade Salvífica de Jesus Cristo e da Igreja

(Esta transcrição é feito do Jornal L´Osservatore Romano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

INTRODUÇÃO

1. O Senhor Jesus, antes de subir ao Céu, confiou aos seus discípulos o mandato de anunciar o Evangelho a todo o mundo e de baptizar todas as nações: « Ide a todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado » (Mc 16,15´16); « Todo o poder Me foi no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizai´as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinai´lhes a cumprir tudo quanto vos mandei. E Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos » (Mt 28,18´20; cf. ainda Lc 24,46´48; Jo 17,18; 20,21; Actos 1,8). A missão universal da Igreja nasce do mandato de Jesus Cristo e realiza´se, através dos séculos, com a proclamação do mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e do mistério da encarnação do Filho, como acontecimento de salvação para toda a humanidade. São estes os conteúdos fundamentais da profissão de fé cristã: « Creio em um só Deus, Pai todo´poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos Céus, onde está sentado à direita do Pai. De novo há´de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai. Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas. Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só baptismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo que há´de vir ».1

2. A Igreja, ao longo dos séculos, proclamou e testemunhou com fidelidade o Evangelho de Jesus. Ao terminar o segundo milénio, porém, esta missão ainda está longe de se cumprir.2 Daí a grande actualidade do grito do Apóstolo Paulo sobre o dever missionário de todo o baptizado: « Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! » (1 Cor 9,16). Assim se explica a especial atenção que o Magistério tem posto na motivação e apoio da missão evangelizadora da Igreja, nomeadamente no que diz respeito às tradições religiosas do mundo.3 Tendo em conta os valores que essas tradições testemunham e oferecem à humanidade, com uma atitude aberta e positiva, a Declaração conciliar sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs afirma: « A Igreja Católica não rejeita absolutamente nada daquilo que há de verdadeiro e santo nessas religiões. Considera com sincero respeito esses modos de agir e de viver, esses preceitos e doutrinas que, embora em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que ela afirma e ensina, muitas vezes reflectem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens ».4 Prosseguindo na mesma linha, o empenho eclesial de anunciar Jesus Cristo, « caminho, verdade e vida » (Jo 14,6), hoje também encontra ajuda na prática do diálogo inter´religioso, que certamente não substitui, mas acompanha a missio ad gentes, graças àquele « mistério de unidade », de que « resulta que todos os homens e mulheres que foram salvos participam, embora de maneira diferente, no mesmo mistério de salvação em Jesus Cristo por meio do seu Espírito ».5 Este diálogo, que faz parte da missão evangelizadora da Igreja,6 comporta uma atitude de compreensão e uma relação de recíproco conhecimento e de mútuo enriquecimento, na obediência à verdade e no respeito da liberdade.7

3. No exercício e aprofundamento teórico do diálogo entre a fé cristã e as demais tradições religiosas surgem novos problemas, que se tenta solucionar, seguindo novas pistas de investigação, adiantando propostas e sugerindo comportamentos, que carecem de um cuidadoso discernimento. Neste esforço, a presente Declaração entende recordar aos Bispos, aos teólogos e a todos os fiéis católicos alguns conteúdos doutrinais imprescindíveis, que podem ajudar a reflexão teológica a amadurecer soluções de acordo com o dado da fé e em correspondência com as urgências culturais do nosso tempo. A linguagem expositiva da Declaração está em linha com a sua finalidade. Não se pretende tratar de forma orgânica a problemática da unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo e da Igreja, nem apresentar soluções aos problemas e questões teológicos que são objecto de livre debate, mas voltar a expor a doutrina da fé católica em propósito, indicando, ao mesmo tempo, alguns problemas fundamentais que se mantêm abertos a ulteriores aprofundamentos, e confutar algumas posições erróneas ou ambíguas. É por isso que a Declaração retoma a doutrina contida nos anteriores documentos do Magistério, para reafirmar as verdades que constituem o património de fé da Igreja.

4. O perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas de facto, mas também de iure (ou de principio). Daí que se considerem superadas, por exemplo, verdades como o carácter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo, a natureza da fé cristã em relação com a crença nas outras religiões, o carácter inspirado dos livros da Sagrada Escritura, a unidade pessoal entre o Verbo eterno e Jesus de Nazaré, a unidade da economia do Verbo Encarnado e do Espírito Santo, a unicidade e universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo, a mediação salvífica universal da Igreja, a não separação, embora com distinção, do Reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja, a subsistência na Igreja Católica da única Igreja de Cristo. Na raiz destas afirmações encontram´se certos pressupostos, de natureza tanto filosófica como teológica, que dificultam a compreensão e a aceitação da verdade revelada. Podem indicar´se alguns: a convicção de não se poder alcançar nem exprimir a verdade divina, nem mesmo através da revelação cristã; uma atitude relativista perante a verdade, segundo a qual, o que é verdadeiro para alguns não o é para outros; a contraposição radical que se põe entre a mentalidade lógica ocidental e a mentalidade simbólica oriental; o subjectivismo de quem, considerando a razão como única fonte de conhecimento, se sente « incapaz de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser »;8 a dificuldade de ver e aceitar na história a presença de acontecimentos definitivos e escatológicos; o vazio metafísico do evento da encarnação histórica do Logos eterno, reduzido a um simples aparecer de Deus na história; o eclectismo de quem, na investigação teológica, toma ideias provenientes de diferentes contextos filosóficos e religiosos, sem se importar da sua coerência e conexão sistemática, nem da sua compatibilidade com a verdade cristã; a tendência, enfim, a ler e interpretar a Sagrada Escritura à margem da Tradição e do Magistério da Igreja. Na base destes pressupostos, que se apresentam com matizes diferentes, por vezes como afirmações e outras vezes como hipóteses, elaboram´se propostas teológicas, em que a revelação cristã e o mistério de Jesus Cristo e da Igreja perdem o seu carácter de verdade absoluta e de universalidade salvífica, ou ao menos se projecta sobre elas uma sombra de dúvida e de insegurança.

I. O CARÁCTER PLENO E DEFINITIVO DA REVELAÇÃO DE JESUS CRISTO

5. Para fazer frente a essa mentalidade relativista, que se vai difundindo cada vez mais, há que reafirmar, antes de mais, o carácter definitivo e completo da revelação de Jesus Cristo. Deve, de facto, crer´se firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, que é « o caminho, a verdade e a vida » (cf. Jo 14,6), dá´se a revelação da plenitude da verdade divina: « Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o queira revelar » (Mt 11,27); « A Deus, ninguém jamais O viu. O próprio Filho Único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer » (Jo 1,18); « É em Cristo que habita corporalmente toda a plenitude da divindade e n´Ele participais da sua plenitude » (Col 2,9). Fiel à palavra de Deus, o Concílio Vaticano II ensina: « A verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta´se´nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação ».9 E sublinha: « Jesus Cristo, portanto, Verbo Encarnado, enviado como ´homem aos homens´, ´fala as palavras de Deus´ (Jo 3,34) e consuma a obra da salvação que o Pai Lhe confiou (cf. Jo 5,36; 17,4). Por isso, Ele ´ ao qual quem vê, vê o Pai (Jo 14,9) ´ com a sua total presença e manifestação pessoal, com as palavras e as obras, com os sinais e com os milagres e, sobretudo, com a sua morte e gloriosa ressurreição de entre os mortos, enfim, com o envio do Espírito de Verdade, completa perfeitamente a revelação e a confirma com o seu testemunho divino [...]. A economia cristã, portanto, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não mais se deve esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tim 6,14 e Tit 2,13) ».10 Por isso, a Encíclica Redemptoris missio relembra à Igreja a missão de proclamar o Evangelho, como plenitude da verdade: « Nesta Palavra definitiva da sua revelação, Deus deu´Se a conhecer do modo mais pleno: Ele disse à humanidade quem é. E esta auto´revelação definitiva de Deus é o motivo fundamental pelo qual a Igreja é, por sua natureza, missionária. Não pode deixar de proclamar o Evangelho, ou seja, a plenitude da verdade que Deus nos deu a conhecer acerca de Si mesmo ».11 Só a revelação de Jesus Cristo, portanto, « introduz na nossa história uma verdade universal e última, que leva a mente do homem a nunca mais se deter ».12

6. É, por conseguinte, contrária à fé da Igreja a tese que defende o carácter limitado, incompleto e imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar da que é presente nas outras religiões. A razão de fundo de uma tal afirmação basear´se´ia no facto de a verdade sobre Deus não poder ser compreendida nem expressa na sua globalidade e inteireza por nenhuma religião histórica e, portanto, nem pelo cristianismo e nem sequer por Jesus Cristo. Semelhante posição está em total contradição com as precedentes afirmações de fé, segundo as quais, temos em Jesus Cristo a revelação plena e completa do mistério salvífico de Deus. Portanto, as palavras, as obras e o inteiro facto histórico de Jesus, se bem que limitados enquanto realidades humanas, têm, todavia, como sujeito a Pessoa divina do Verbo Encarnado, « verdadeiro Deus e verdadeiro homem »,13 e assim comportam o carácter definitivo e completo da revelação dos caminhos salvíficos de Deus, embora a profundidade do mistério divino em si mesmo permaneça transcendente e inesgotável. A verdade sobre Deus não é abolida nem diminuída pelo facto que é proferida numa linguagem humana. É, invés, única, plena e completa, porque quem fala e actua é o Filho de Deus Encarnado. Daí a exigência da fé em se professar que o Verbo feito carne é, em todo o seu mistério que vai da encarnação à glorificação, a fonte, participada mas real, e a consumação de toda a revelação salvífica de Deus à humanidade,14 e que o Espírito Santo, que é o Espírito de Cristo, ensinará aos Apóstolos e, por meio deles, à Igreja inteira de todos os tempos, esta « verdade total » (Jo 16, 13).

7. A melhor resposta à revelação de Deus é a « obediência da fé (Rom 1,5; cf. Rom 16,26; 2 Cor 10,5´6), com a qual o homem se entrega livre e totalmente a Deus, oferecendo a Deus ´revelador a submissão plena da inteligência e da vontade´ e dando voluntariamente assentimento à revelação feita por Ele ».15 A fé é um dom da graça: « Porque para professar esta fé, é necessária a graça de Deus que previne e ajuda, e os outros auxílios internos do Espírito Santo, o qual mova e converta para Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê ´a todos a suavidade no aderir e dar crédito à verdade´ ».16 A obediência da fé comporta a aceitação da verdade da revelação de Cristo, garantida por Deus, que é a própria Verdade:17 « A fé é, antes de mais, uma adesão pessoal do homem a Deus; ao mesmo tempo e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou ».18 A fé, portanto, « dom de Deus » e « virtude sobrenatural por Ele infundida »,19 comporta uma dupla adesão: a Deus, que revela, e à verdade revelada por Ele, pela confiança que se tem na pessoa que o afirma. Por isso « não se deve acreditar em mais ninguém, a não ser em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo ».20 Deve, portanto, manter´se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões. Se fé é aceitar na graça a verdade revelada, « que permite penetrar no seio do mistério, favorecendo a sua inteligência coerente »,21 a crença nas outras religiões é o conjunto de experiência e pensamento, que constitui os tesouros humanos de sabedoria e de religiosidade, que o homem na sua procura da verdade ideou e pôs em prática em referência ao Divino e ao Absoluto.22 Nem sempre se tem presente essa distinção na reflexão hodierna, sendo frequente identificar a fé teologal, que é aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, com crença nas outras religiões, que é experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida do assentimento a Deus que Se revela. Essa é uma das razões porque se tende reduzir, e por vezes até anular, as diferenças entre o cristianismo e as outras religiões.

8. Existe também quem avance a hipótese do valor inspirado dos textos sagrados de outras religiões. Certamente deve admitir´se que alguns elementos presentes neles são de facto instrumentos, através dos quais, multidões de pessoas puderam, através dos séculos, e podem ainda hoje alimentar e manter a sua relação religiosa com Deus. Por isso, o Concílio Vaticano II, referindo´se aos modos de agir, aos preceitos e doutrinas das outras religiões, afirma ´ como cima se recordou ´ que, « embora em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que [a Igreja] afirma e ensina, muitas vezes reflectem um raio daquela Verdade, que ilumina todos os homens ».23 A tradição da Igreja, porém, reserva o qualificativo de textos inspirados aos livros canónicos do Antigo e Novo Testamento, enquanto inspirados pelo Espírito Santo.24 Fiel a esta tradição, a Constituição dogmática sobre a divina Revelação do Concílio Vaticano II ensina: « Com efeito, a Santa Mãe Igreja, por fé apostólica, tem como sagrados e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque escritos por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 2 Tim 3,16; 2 Pedro 1,19´21; 3,15´16), têm Deus por autor e, como tais, foram confiados à própria Igreja ».25 Tais livros « ensinam com firmeza, com fidelidade e sem erro, a verdade que Deus, por causa da nossa salvação, quis consignar nas Sagradas Letras ».26 Embora querendo congregar em Cristo todas as gentes e comunicar´lhes a plenitude da sua revelação e do seu amor, Deus não deixa de Se tornar presente sob variadas formas « quer aos indivíduos, quer aos povos, através das suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm ´lacunas, insuficiências e erros´ ».27 Portanto, os livros sagrados das outras religiões, que sem dúvida alimentam e orientam a existência dos seus sequazes, recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça neles presentes.

II. O LOGOS ENCARNADO E O ESPÍRITO SANTO NA OBRA DA SALVAÇÃO

9. Na reflexão teológica contemporânea é frequente fazer´se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando´o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar´se´ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas. Mais concretamente, seria para alguns um dos tantos vultos que o Logos teria assumido no decorrer dos tempos para comunicar em termos de salvação com a humanidade. Além disso, para justificar, de um lado, a universalidade da salvação cristã e, do outro, o facto do pluralismo religioso, há quem proponha uma economia do Verbo eterno, válida também fora da Igreja e sem relação com ela, e uma economia do Verbo Encarnado. A primeira teria um plus´valor de universalidade em relação à segunda, que seria limitada aos cristãos, se bem que com uma presença de Deus mais plena.

10. Semelhantes teses estão em profundo contraste com a fé cristã. Deve, de facto, crer´se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o Filho e o Verbo do Pai. O Verbo, que « estava no princípio junto de Deus » (Jo 1,2), é o mesmo « que Se fez carne » (Jo 1,14). Em Jesus « o Cristo, o Filho do Deus vivo » (Mt 16,16) « habita corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col 2,9). Ele é « o Filho unigénito, que está no seio do Pai » (Jo 1,18), o seu « Filho muito amado, no qual temos a redenção [...]. Aprouve a Deus que n´Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus » (Col 1,13´14.19´20). Fiel à Sagrada Escritura e refutando interpretações erróneas e redutivas, o primeiro Concílio de Niceia definiu solenemente a própria fé em « Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigénito do Pai, ou seja, da substância do Pai; Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por meio do qual foram criadas todas as coisas do céu e da terra. Por nós homens e pela nossa salvação, desceu do céu, encarnou e Se fez homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, voltou a subir ao céu, donde virá para julgar os vivos e os mortos ».28 Seguindo os ensinamentos dos Padres, também o Concílio de Calcedónia professou « que o único e idêntico Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, é Ele mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem [...], consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade [...]; gerado do Pai antes dos séculos segundo a divindade e, nos últimos dias, Ele mesmo por nós e pela nossa salvação, de Maria, a virgem Mãe de Deus, segundo a humanidade ».29 Por isso, o Concílio Vaticano II afirma que Cristo, « novo Adão », « imagem de Deus invisível » (Col 1,15), « é o homem perfeito, que restituiu à descendência de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado [...]. Cordeiro inocente, pelo seu sangue voluntariamente derramado, mereceu´nos a vida e n´Ele Deus nos reconciliou consigo e connosco, libertando´nos da escravidão do diabo e do pecado, de tal sorte que cada um pode dizer com o Apóstolo: o Filho de Deus ´amou´me e entregou´Se a Si mesmo por mim´ (Gal 2,20) ».30 A esse respeito, João Paulo II declarou explicitamente: « É contrário à fé cristã introduzir qualquer separação entre o Verbo e Jesus Cristo [...]: Jesus é o Verbo Encarnado, pessoa una e indivisa [...]. Cristo não é diferente de Jesus de Nazaré; e este é o Verbo de Deus, feito homem para a salvação de todos [...]. À medida que formos descobrindo e valorizando os diversos tipos de dons, e sobretudo as riquezas espirituais, que Deus distribuiu a cada povo, não podemos separá´los de Jesus Cristo, o qual está no centro da economia salvadora ».31 É igualmente contra a fé católica introduzir uma separação entre a ação salvífica do Logos, enquanto tal, e a do Verbo feito carne. Com a encarnação, todas as ações salvíficas do Verbo de Deus fazem´se sempre em unidade com a natureza humana, que Ele assumiu para a salvação de todos os homens. O único sujeito que opera nas duas naturezas ´ humana e divina ´ é a única pessoa do Verbo.32 Portanto, não é compatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se realizasse « à margem » e « para além » da humanidade de Cristo, também depois da encarnação.33

11. Do mesmo modo, deve crer´se firmemente na doutrina de fé sobre a unicidade da economia salvífica querida por Deus Uno e Trino, em cuja fonte e em cujo centro se encontra o mistério da encarnação do Verbo, mediador da graça divina no plano da criação e da redenção (cf. Col 1,15´20), « recapitulador de todas as coisas » (cf. Ef 1,10), « tornado para nós justiça, santificação e redenção » (1 Cor 1,30). De facto, o mistério de Cristo tem uma sua unidade intrínseca, que vai da eleição eterna em Deus até à parusia: « N´Ele [o Pai] nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d´Ele » (Ef 1,4); « Foi também n´Ele que fomos feitos herdeiros, segundo os desígnios de quem tudo realiza conforme decide a sua vontade » (Ef 1,11); « Pois àqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de que Ele fosse o Primogénito de muitos irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e, àqueles que justificou, também os glorificou » (Rom 8,29´30). O Magistério da Igreja, fiel à revelação divina, afirma que Jesus Cristo é o mediador e o redentor universal: « O Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, encarnou, a fim de, como homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular todas as coisas. O Senhor [...] é aquele a quem o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e colocou à sua direita, constituindo´O juiz dos vivos e dos mortos ».34 Esta mediação salvífica implica também a unicidade do sacrifício redentor de Cristo, sumo e eterno Sacerdote (cf. Hebr 6,20; 9,11; 10,12´14).

12. Há ainda quem sustente a hipótese de uma economia do Espírito Santo com um carácter mais universal que a do Verbo Encarnado, crucificado e ressuscitado. Também essa afirmação é contrária à fé católica, que, ao contrário, considera a encarnação salvífica do Verbo um acontecimento trinitário. No Novo Testamento o mistério de Jesus, Verbo Encarnado, constitui o lugar da presença do Espírito Santo e o principio da sua efusão na humanidade, não só nos tempos messiânicos (cf. Act 2,32´36; Jo 7,39; 20,22; 1 Cor 15,45), mas também nos que precederam a sua entrada na história (cf. 1 Cor 10,4; 1 Pedro 1,10´12). O Concílio Vaticano II repropôs à consciência da fé da Igreja essa verdade fundamental. Ao expor o plano salvífico do Pai sobre a humanidade inteira, o Concílio liga estreitamente, desde o princípio, o mistério de Cristo com o do Espírito.35 Toda a obra de edificação da Igreja por parte de Jesus Cristo Cabeça, no decorrer dos séculos, é vista como uma realização que Ele faz em comunhão com o seu Espírito.36 Além disso, a acção salvífica de Jesus Cristo, com e pelo seu Espírito, estende´se, para além dos confins visíveis da Igreja, a toda a humanidade. Falando do mistério pascal, em que Cristo agora já associa vitalmente a Si no Espírito o crente e lhe dá a esperança da ressurreição, o Concílio afirma: « E isto vale não apenas para aqueles que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal ».37 É claro, portanto, o laço entre o mistério salvífico do Verbo Encarnado e o do Espírito, que mais não faz que actuar a influência salvífica do Filho feito homem na vida de todos os homens, chamados por Deus a uma única meta, quer tenham precedido historicamente o Verbo feito homem, quer vivam depois da sua vinda na história: de todos eles é animador o Espírito do Pai, que o Filho do homem doa com liberalidade (cf. Jo 3,34). Por isso, o recente Magistério da Igreja recordou com firmeza e clareza a verdade de uma única economia divina: « A presença e acção do Espírito não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas, as religiões [...]. Cristo ressuscitado, pela virtude do seu Espírito, actua já no coração dos homens [...]. É ainda o Espírito que infunde as ´sementes do Verbo´, presentes nos ritos e nas culturas, e as faz maturar em Cristo ».38 Embora reconhecendo a função histórico´salvífica do Espírito em todo o universo e na inteira história da humanidade,39 o Magistério, todavia afirma: « Este Espírito é o mesmo que operou na encarnação, na vida, morte e ressurreição de Jesus e opera na Igreja. Não é, portanto, alternativo a Cristo, nem preenche uma espécie de vazio, como por vezes se julga que exista entre Cristo e o Logos. O que o Espírito realiza no coração dos homens e na história dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica e não pode deixar de referir´se a Cristo, Verbo feito carne pela acção do Espírito, ´a fim de, como Homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular em Si todas as coisas´ ».40 Concluindo, a acção do Espírito não se coloca fora ou ao lado da de Cristo. Trata´se de uma única economia salvífica de Deus Uno e Trino, realizada no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus, actuada com a cooperação do Espírito Santo e estendida, no seu alcance salvífico, à inteira humanidade e ao universo: « Os homens só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo, e sob a acção do Espírito ».41

III. UNICIDADE E UNIVERSALIDADE DO MISTÉRIO SALVÍFICO DE JESUS CRISTO

13. É igualmente frequente a tese que nega a unicidade e a universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo. Tal posição não tem nenhum fundamento bíblico. Deve, invés, crer´se firmemente, como dado perene da fé da Igreja, a verdade de Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor e único salvador, que no seu evento de encarnação, morte e ressurreição realizou a história da salvação, a qual tem n´Ele a sua plenitude e o seu centro. Os testemunhos neo´testamentários afirmam´no claramente: « O Pai enviou o seu Filho como salvador do mundo » (1 Jo 4,14); « Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo » (Jo 1,29). No seu discurso perante o sinédrio, Pedro, para justificar a cura do homem que era aleijado desde o nascimento, cura realizada no nome de Jesus (cf. Actos 3,1´8), proclama: « E não há salvação em nenhum outro, pois não existe debaixo do Céu outro nome dado aos homens, pelo qual tenhamos de ser salvos » (Actos 4,12). O mesmo Apóstolo acrescenta ainda que Jesus Cristo « é o Senhor de todos »; « foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos »; pelo que « todo o que acredita n´Ele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados » (cf. Actos 10,36.42.43). Paulo, dirigindo´se à comunidade de Corinto, escreve: « Porque, embora digam haver deuses no céu e na terra, ´ na verdade são muitos esses deuses e esses senhores ´ para nós há um só Deus: o Pai, de quem tudo procede e para o qual fomos criados; e há um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual tudo existe e pelo qual também nós existimos » (1 Cor 8,5´6). Também o Apóstolo João afirma: « Deus amou de tal maneira o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o homem que acredita n´Ele não se perca, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para este ser salvo por seu intermédio » (Jo 3,16´17). No Novo Testamento, a vontade salvífica universal de Deus está estritamente ligada à única mediação de Cristo: « [Deus] quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois Deus é um só, e um só também o Mediador entre Deus e os homens: esse homem, que é Cristo Jesus, que Se entregou à morte para resgatar a todos » (1 Tim 2,4´6). É sobre esta consciência do dom de salvação único e universal dado pelo Pai por meio de Jesus Cristo no Espírito (cf. Ef 1,3´14), que os primeiros cristãos se dirigiram a Israel, mostrando que a salvação se alcançava para além da Lei, e enfrentaram o mundo pagão de então, que aspirava à salvação através de uma pluralidade de deuses salvadores. Este património de fé voltou a ser proposto pelo recente Magistério da Igreja: « A Igreja crê que Cristo, morto e ressuscitado por todos (cf. 2 Cor 5,15), oferece à humanidade, pelo seu Espírito, luz e forças que lhe permitem corresponder à sua altíssima vocação. Ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual eles devam ser salvos (cf. Actos 4,12). Ela crê também que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre ».42

14. Deve, portanto, crer´se firmemente como verdade de fé católica que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. Tendo presente este dado de fé, a teologia hoje, meditando na presença de outras experiências religiosas e no seu significado no plano salvífico de Deus, é convidada a explorar se e como também figuras e elementos positivos de outras religiões reentram no plano divino de salvação. Neste empenho de reflexão abre´se à investigação teológica um vasto campo de trabalho sob a guia do Magistério da Igreja. O Concílio Vaticano II, de facto, afirmou que « a única mediação do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas uma cooperação múltipla, que é participação na fonte única ».43 Há que aprofundar o conteúdo desta mediação participada, que deve ser todavia regulada pelo princípio da única mediação de Cristo: « Se não se excluem mediações participadas de diverso tipo e ordem, todavia elas recebem significado e valor unicamente da de Cristo, e não podem ser entendidas como paralelas ou complementares desta ».44 Seriam, invés, contrárias à fé cristã e católica as propostas de solução que apresentam uma acção salvífica de Deus fora da única mediação de Cristo.

15. Não é raro que se proponha evitar na teologia termos como « unicidade », « universalidade », « absoluto », cujo uso daria a impressão de se dar uma ênfase excessiva ao significado e valor do evento salvífico de Jesus Cristo em relação às demais religiões. Ora, essa linguagem não faz mais que exprimir a fidelidade ao dado revelado, uma vez que constitui uma evolução das próprias fontes da fé. Desde o início, efectivamente, a comunidade dos crentes atribuiu a Jesus um valor salvífico de tal ordem, que apenas Ele, como Filho de Deus feito homem, crucificado e ressuscitado, por missão recebida do Pai e no poder do Espírito Santo, tem por finalidade dar a revelação (cf. Mt 11,27) e a vida divina (cf. Jo 1,12; 5,25´26; 17,2) à humanidade inteira e a cada homem. Neste sentido, pode e deve dizer´se que Jesus Cristo tem para o género humano e para a sua história um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais, absolutos. Jesus é, de facto, o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos. Recebendo esta consciência de fé, o Concílio Vaticano II ensina: « O Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, encarnou, a fim de, como homem perfeito, salvar a todos e recapitular todas as coisas. O Senhor é o fim da história humana, ´o ponto para o qual tendem os desejos da história e da civilização´, o centro da humanidade, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações. É aquele a quem o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e colocou à sua direita, constituindo´O juiz dos vivos e dos mortos ».45 « Precisamente esta singularidade única de Cristo é que Lhe confere um significado absoluto e universal, pelo qual, enquanto está na História, é o centro e o fim desta mesma História: ´Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim´ (Ap 22,13) ».46

IV. UNICIDADE E UNIDADE DA IGREJA

16. O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério salvífico: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja n´Ele (cf. Jo 15,1ss.; Gal 3,28; Ef 4,15´16; Actos 9,5); por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor. Jesus Cristo, com efeito, continua a estar presente e a operar a salvação na Igreja e através da Igreja (cf. Col 1,24´27),47 que é o seu Corpo (cf. 1 Cor 12,12´13.27; Col 1,18).48 E, assim como a cabeça e os membros de um corpo vivo, embora não se identifiquem, são inseparáveis, Cristo e a Igreja não podem confundir´se nem mesmo separar´se, constituindo invés um único « Cristo total ».49 Uma tal inseparabilidade é expressa no Novo Testamento também com a analogia da Igreja Esposa de Cristo (cf. 2 Cor 11,2; Ef 5,25´29; Ap 21,2.9).50 Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer´se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: « uma só Igreja católica e apostólica ».51 Por outro lado, as promessas do Senhor de nunca abandonar a sua Igreja (cf. Mt 16,18; 28,20) e de guiá´la com o seu Espírito (cf. Jo 16,13) comportam que, segundo a fé católica, a unicidade e unidade, bem como tudo o que concerne a integridade da Igreja, jamais virão a faltar.52 Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica ´ radicada na sucessão apostólica53 ´ entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando´o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando´a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele ».54 Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmar´se que « o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57

17. Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele.58 As Igrejas que, embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares.59 Por isso, também nestas Igrejas está presente e actua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objectivamente tem e exerce sobre toda a Igreja.60 As Comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico,61 não são Igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas Comunidades estão pelo Baptismo incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja.62 O Baptismo, efectivamente, tende por si ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja.63 « Os fiéis não podem, por conseguinte, imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma ´ diferenciada e, de certo modo, também unitária ´ das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma, tornando´se, assim, um mero objecto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades ».64 « Os elementos desta Igreja já realizada existem, reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades ».65 « Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito Se não recusa a servir´Se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».66 A falta de unidade entre os cristãos é certamente uma ferida para a Igreja; não no sentido de estar privada da sua unidade, mas « porque a divisão é um obstáculo à plena realização da sua universalidade na história ».67

V. A IGREJA, REINO DE DEUS E REINO DE CRISTO

18. A missão da Igreja é a « de anunciar o Reino de Cristo e de Deus e de instaurá´lo entre todos os povos; desse Reino ela é na terra o germe e o início ».68 Por um lado, a Igreja é « sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade do género humano »;69 ela é, portanto, sinal e instrumento do Reino: chamada a anunciá´lo e a instaurá´lo. Por outro, a Igreja é o « povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo »;70 ela é portanto « o Reino de Cristo já presente em mistério »,71 constituindo assim o seu germe e início. O Reino de Deus tem, de facto, uma dimensão escatológica: é uma realidade presente no tempo, mas a sua plena realização dar´se´á apenas quando a história terminar ou se consumar.72 Dos textos bíblicos e dos testemunhos patrísticos, bem como dos documentos do Magistério da Igreja, não se tiram significados unívocos para as expressões Reino dos Céus, Reino de Deus e Reino de Cristo, nem para a relação das mesmas com a Igreja, sendo esta um mistério que não se pode encerrar totalmente num conceito humano. Podem existir, portanto, diversas explicações teológicas dessas expressões, mas nenhuma dessas possíveis explicações pode negar ou esvaziar de maneira nenhuma a conexão íntima entre Cristo, o Reino e a Igreja. Pois, « o Reino de Deus, que conhecemos pela Revelação não pode ser separado de Cristo nem da Igreja... Se separarmos o Reino, de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus, por Ele pregado, acabando por se distorcer quer o sentido do Reino, que corre o risco de se transformar numa meta puramente humana ou ideológica, quer a identidade de Cristo, que deixa de aparecer como o Senhor, a quem tudo se deve submeter (cf. 1 Cor 15,27). De igual modo, não podemos separar o Reino, da Igreja. Com certeza que esta não é fim em si própria, uma vez que se ordena ao Reino de Deus, do qual é princípio, sinal e instrumento. Mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a Igreja todavia está unida indissoluvelmente a ambos ».73

19. Afirmar a relação inseparável entre Igreja e Reino não significa porém esquecer que o Reino de Deus ´ mesmo considerado na sua fase histórica ´ não se identifica com a Igreja na sua realidade visível e social. Não se deve, de facto, excluir « a obra de Cristo e do Espírito fora dos confins visíveis da Igreja ».74 Daí que se deva também considerar que « o Reino diz respeito a todos: às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro. Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está presente na história humana e a transforma. Construir o Reino quer dizer trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas formas. Em resumo, o Reino de Deus é a manifestação e a actuação do seu desígnio de salvação, em toda a sua plenitude ».75 Ao considerar as relações entre Reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja hão´de evitar´se sempre as acentuações unilaterais, como são as « concepções que propositadamente colocam o acento no Reino, auto´denominando´se de ´reino´cêntricas´, pretendendo com isso fazer ressaltar a imagem de uma Igreja que não pensa em si, mas dedica´se totalmente a testemunhar e servir o Reino. É uma ´Igreja para os outros´ ´ dizem ´ como Cristo é o ´homem para os outros´ [...]. Ao lado de aspectos positivos, essas concepções revelam frequentemente outros negativos. Antes demais, silenciam o que se refere a Cristo: o Reino, de que falam, baseia´se num ´teo´centrismo´, porque ´ como dizem ´ Cristo não pode ser entendido por quem não possui a fé n´Ele, enquanto que povos, culturas e religiões se podem encontrar na mesma e única realidade divina, qualquer que seja o seu nome. Pela mesma razão, privilegiam o mistério da criação, que se reflecte na variedade de culturas e crenças, mas omitem o mistério da redenção. Mais ainda, o Reino, tal como o entendem eles, acaba por marginalizar ou desvalorizar a Igreja, como reacção a um suposto « eclesiocentrismo » do passado, por considerarem a Igreja apenas um sinal, aliás passível de ambiguidade ».76 Tais teses são contrárias à fé católica, por negarem a unicidade da relação de Cristo e da Igreja com o Reino de Deus.

VI. A IGREJA E AS RELIGIÕES NO QUE CONCERNE A SALVAÇÃO

20. De quanto acima se recordou, resultam ainda alguns pontos necessários para o percurso que a reflexão teológica deve seguir no aprofundamento da relação da Igreja e das religiões com a salvação. Antes de mais, deve crer´se firmemente que a « Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação. Só Cristo é mediador e caminho de salvação; ora, Ele torna´se´nos presente no seu Corpo que é a Igreja; e, ao inculcar por palavras explícitas a necessidade da fé e do Baptismo (cf. Mc 16,16; Jo 3,5), corroborou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Baptismo tal como por uma porta ».77 Esta doutrina não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus (cf. 1 Tim 2,4); daí « a necessidade de manter unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa salvação ».78 A Igreja é « sacramento universal de salvação »,79 porque, sempre unida de modo misterioso e subordinada a Jesus Cristo Salvador, sua Cabeça, tem no plano de Deus uma relação imprescindível com a salvação de cada homem.80 Para aqueles que não são formal e visivelmente membros da Igreja, « a salvação de Cristo torna´se acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo ».81 Tem uma relação com a Igreja, que por sua vez « tem a sua origem na missão do Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai ».82

21. Quanto ao modo como a graça salvífica de Deus, dada sempre através de Cristo no Espírito e em relação misteriosa com a Igreja, atinge os não cristãos, o Concílio Vaticano II limitou´se a afirmar que Deus a dá « por caminhos só por Ele conhecidos ».83 A teologia esforça´se por aprofundar a questão. Há que encorajar esse esforço teológico, que sem dúvida serve para aumentar a compreensão dos desígnios salvíficos de Deus e dos caminhos que os realizam. Todavia, de quanto acima foi dito sobre a mediação de Jesus Cristo e sobre a « relação única e singular »84 que a Igreja tem com o Reino de Deus entre os homens ´ que é substancialmente o Reino de Cristo Salvador universal ´, seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus. Não há dúvida que as diversas tradições religiosas contêm e oferecem elementos de religiosidade, que procedem de Deus,85 e que fazem parte de « quanto o Espírito opera no coração dos homens e na história dos povos, nas culturas e religiões ».86 Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os corações dos homens a se abrirem à acção de Deus.87 Não se lhes pode porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos.88 Por outro lado, não se pode ignorar que certos ritos, enquanto dependentes da superstição ou de outros erros (cf. 1 Cor 10,20´21), são mais propriamente um obstáculo à salvação.89

22. Com a vinda de Jesus Cristo Salvador, Deus quis que a Igreja por Ele fundada fosse o instrumento de salvação para toda a humanidade (cf. Act 17,30´31).90 Esta verdade de fé nada tira ao facto de a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista « imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que ´tanto vale uma religião como outra´ ».91 Se é verdade que os adeptos das outras religiões podem receber a graça divina, também é verdade que objectivamente se encontram numa situação gravemente deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos meios de salvação.92 Há que lembrar, todavia, « a todos os filhos da Igreja que a grandeza da sua condição não é para atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não corresponderem a essa graça, por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrerão num juízo mais severo ».93 Compreende´se, portanto, que, em obediência ao mandato do Senhor (cf. Mt 28,19´20) e como exigência do amor para com todos os homens, a Igreja « anuncia e tem o dever de anunciar constantemente a Cristo, que é ´o caminho, a verdade e a vida´ (Jo 14,6), no qual os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou todas as coisas consigo ».94 A missão ad gentes, também no diálogo inter´religioso, « mantém hoje, como sempre, a sua validade e necessidade ».95 Com efeito, « Deus ´quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade´ (1 Tim 2,4): quer a salvação de todos através do conhecimento da verdade. A salvação encontra´se na verdade. Os que obedecem à moção do Espírito de verdade já se encontram no caminho da salvação; mas a Igreja, a quem foi confiada essa verdade, deve ir ao encontro do seu desejo e oferecer´lha. Precisamente porque acredita no plano universal de salvação, a Igreja deve ser missionária ».96 O diálogo, portanto, embora faça parte da missão evangelizadora, é apenas uma das acções da Igreja na sua missão ad gentes.97 A paridade, que é um pressuposto do diálogo, refere´se à igual dignidade pessoal das partes, não aos conteúdos doutrinais e muito menos a Jesus Cristo ´ que é o próprio Deus feito Homem ´ em relação com os fundadores das outras religiões. A Igreja, com efeito, movida pela caridade e pelo respeito da liberdade,98 deve empenhar´se, antes de mais, em anunciar a todos os homens a verdade, definitivamente revelada pelo Senhor, e em proclamar a necessidade da conversão a Jesus Cristo e da adesão à Igreja através do Baptismo e dos outros sacramentos, para participar de modo pleno na comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Aliás, a certeza da vontade salvífica universal de Deus não diminui, antes aumenta, o dever e a urgência do anúncio da salvação e da conversão ao Senhor Jesus Cristo.

CONCLUSÃO

23. A presente Declaração, ao relembrar e esclarecer algumas verdades de fé, quis seguir o exemplo do Apóstolo Paulo aos fiéis de Corinto: « Pois eu transmiti´vos em primeiro lugar o mesmo que havia recebido » (1 Cor 15,3). Perante certas propostas problemáticas ou mesmo erróneas, a reflexão teológica é chamada a reconfirmar a fé da Igreja e a dar razão da sua esperança de forma convincente e eficaz. Os Padres do Concílio Vaticano II, debruçando´se sobre o tema da verdadeira religião, afirmaram: « Acreditamos que esta única verdadeira religião se verifica na Igreja Católica e Apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou a missão de a difundir a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: ´Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizai´as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinai´lhes a cumprir tudo quanto vos mandei´ (Mt 28,19´20). Por sua vez, todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo no que se refere a Deus e à sua Igreja, e a abraçá´la e pô´la em prática, uma vez conhecida ».99 A revelação de Cristo continuará a ser na história « a verdadeira estrela de orientação » 100 para toda a humanidade: « A Verdade, que é Cristo, impõe´se como autoridade universal ». 101 O mistério cristão, com efeito, supera qualquer barreira de tempo e de espaço e realiza a unidade da família humana: « Dos mais diversos lugares e tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na unidade da família dos filhos de Deus [...]. Jesus abate os muros de divisão e realiza a unificação, de um modo original e supremo, por meio da participação no seu mistério. Esta unidade é tão profunda que a Igreja pode dizer com São Paulo: ´Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus´ (Ef 2,19) ». 102 O Sumo Pontífice João Paulo II, na Audiência concedida, a 16 de Junho de 2000, ao abaixo´assinado Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com ciência certa e com a sua autoridade apostólica ratificou e confirmou esta Declaração, decidida em Sessão Plenária, e mandou que fosse publicada. Dado em Roma, sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de Agosto 2000, Festa da Transfiguração do Senhor. Joseph Card. Ratzinger Prefeito

Tarcisio Bertone, S.D.B.
Arcebispo emérito de Vercelli
Secretário

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Conc. de Costantinopla I, Symbolum Constantinopolitanum: Denz., n. 150.

(2) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 1: AAS 83 (1991) 249´340.

(3) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes e Decl. Nostra aetate; cf. ainda Paulo VI, Exort. apost. Evangelii nuntiandi: AAS 68 (1976) 5´76; João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio.

(4) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2.

(5) Pont. Cons. para o Diálogo Inter´religioso e Congr. para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio, n. 29: AAS 84 (1992) 414´446; cf. Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

(6) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55.

(7) Cf. Pont. Cons. para o Diálogo Inter´religioso e Congr. para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio, n. 9.

(8) João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 5: AAS 91 (1999) 5´88.

(9) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 2.

(10) Ibid., n. 4.

(11) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 5.

(12) João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 14.

(13) Conc. de Calcedonia, Symbolum Chalcedonense: Denz., n. 301. Cf. S. Atanásio de Alexandria, De Incarnatione, 54, 3: SC 199, 458.

(14) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 4.

(15) Ibid., n. 5.

(16) Ibid.

(17) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 144.

(18) Ibid., n. 150.

(19) Ibid., n. 153.

(20) Ibid., n. 178.

(21) João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 13.

(22) Cf. ibid., nn. 31´32.

(23) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2. Cf. ainda Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 9, onde se fala de elementos de bem, presentes « nos usos e culturas particulares dos povos »; Const. dogm. Lumen gentium, n. 16, onde se acena a elementos de bem e de verdade, presentes entre os não cristãos, que podem ser considerados uma preparação para a aceitação do Evangelho.

(24) Cf. Conc. de Trento, Decr. de libris sacris et de traditionibus recipiendis: Denz., n. 1501; Conc. Vaticano I, Const. dogm. Dei Filius, cap. 2: Denz., n. 3006.

(25) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Dei verbum, n. 11.

(26) Ibid.

(27) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55. Cf. ainda n. 56. Cf. Paulo VI, Exort. apost. Evangelii nuntiandi, n. 53.

(28) Conc. de Niceia I, Symbolum Nicaenum: Denz., n. 125.

(29) Conc. de Calcedónia, Symbolum Chalcedonense: Denz., n. 301.

(30) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

(31) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 6.

(32) Cf. S. Leão Magno, Tomus ad Flavianum: Denz., n. 294.

(33) Cf. S. Leão Magno, Litterae « Promisisse me memini » ad Leonem I imp.: Denz., n. 318: « In tantam unitatem ab ipso conceptu Virginis deitate et humanitate conserta, ut nec sine homine divina, nec sine Deo agerentur humana ». Cf. ainda ibid.: Denz., n. 317.

(34) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 45. Cf. ainda Conc. de Trento, Decr. De peccato originali, n. 3: Denz., n. 1513.

(35) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 3´4.

(36) Cf. ibid., n. 7. Cf. S. Ireneu, o qual afirmava que na Igreja « foi estabelecida a comunhão com Cristo, ou seja, com o Espírito Santo » (Adversus Haereses III, 24, 1: SC 211, 472).

(37) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

(38) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 28. Quanto às « sementes do Verbo » cf. ainda S. Justino, 2 Apologia 8,1´2; 10,1´3; 13,3´6: ed. E.J. Goodspeed, pp. 84; 85; 88´89.

(39) Cf. ibid., nn. 28´29.

(40) Ibid., n. 29.

(41) Ibid., n. 5.

(42) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 10. Cf. S. Agostinho, que afirma que fora de Cristo, « caminho universal de salvação, que nunca faltou ao género humano, nunca ninguém foi libertado, ninguém é libertado, ninguém será libertado »: De Civitate Dei 10, 32, 2: CCL 47, 312.

(43) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 62.

(44) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 5.

(45) Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 45. A necessária e absoluta singularidade e universalidade de Cristo na história humana é bem expressa por S. Ireneu quando contempla a proeminência de Jesus como Primogénito: « Nos céus, como primogénito do pensamento do Pai, o Verbo perfeito conduz pessoalmente todas as coisas e legisla; sobre a terra, como primogénito da Virgem, homem justo e santo, servo de Deus, bom e agradável a Deus, perfeito em tudo; enfim, salvando dos infernos todos os que o seguem, como primogénito dos mortos, é cabeça e fonte da vida de Deus » (Demonstratio, 39: SC 406, 138).

(46) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 6.

(47) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14.

(48) Cf. ibid., n. 7.

(49) Cf. S. Agostinho, Enarrat. in Psalmos, Ps. 90, Sermo 2,1: CCL 39, 1266; S. Gregório Magno, Moralia in Iob, Praefatio, 6, 14: PL 75, 525; S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 48, a. 2 ad 1.

(50) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 6.

(51) Símbolo da fé: Denz., n. 48. Cf. Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam: Denz., n. 870´872; Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 8.

(52) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 4; João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 11: AAS 87 (1995) 921´982.

(53) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 20; cf. ainda S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 3, 1´3: SC 211, 20´44; S. Cipriano, Epist. 33, 1: CCL 3B, 164´165; S. Agostinho, Contra advers. legis et prophet., 1, 20, 39: CCL 49, 70.

(54) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 8.

(55) Ibid., cf. João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 13. Conc. Vaticano II, Const. Dogm. Lumen gentium, n. 15 e Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.

(56) É, portanto, contrária ao significado autêntico do texto do Concílio a interpretação que leva a deduzir da fórmula subsistit in a tese, segundo a qual, a única Igreja de Cristo poderia também subsistir em Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. « O Concílio, invés, adoptou a palavra ´subsistit´ precisamente para esclarecer que existe uma só ´subsistência´ da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas ´elementa Ecclesiae´, que ´ por serem elementos da própria Igreja ´ tendem e conduzem para a Igreja Católica » [Congr. para a Doutrina da Fé, Notificação sobre o volume ´Igreja: carisma e poder´ do P. Leonardo Boff: AAS 77 (1985) 756´762].

(57) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n.3.

(58) Cf. Congr. Para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1: AAS 65 (1973) 396´408.

(59) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, nn. 14 e 15; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17: AAS 85 (1993) 838´850.

(60) Cf. Conc. Vaticano I, Const. dogm. Pastor aeternus: Denz., n. 3053´3064; Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 22.

(61) Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 22.

(62) Cf. ibid., n. 3.

(63) Cf. ibid., n. 22.

(64) Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium ecclesiae, n. 1.

(65) João Paulo II, Carta Enc. Ut unum sint, n. 14.

(66) Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.

(67) Congr. para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio, n. 17. Cf. Conc. Vaticano II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 4.

(68) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 5.

(69) Ibid., n. 1.

(70) Ibid., n. 4. Cf. S. Cipriano, De Dominica oratione 23: CCL 3A, 105.

(71) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 3.

(72) Cf. ibid., n. 9. Cf ainda a oração dirigida a Deus, que se lê na Didaché 9, 4: SC 248, 176: « A tua Igreja se reúna, dos confins da terra, no teu Reino », e ibid., 10, 5: SC 248, 180: « Lembra´te, Senhor, da tua Igreja...e, santificada, congrega´a dos quatro ventos no teu Reino, que para ela preparaste ».

(73) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 18; cf. Exort. apost. Ecclesia in Asia, n. 17: in « L´Osservatore Romano », 7´11´1999. O Reino é de tal modo inseparável de Cristo que, em certo sentido, identifica´se com Ele (cf. Orígenes, In Mt. Hom., 14,7: PG 13, 1197; Tertuliano, Adversus Marcionem, IV, 33,8: CCL 1, 634).

(74) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 18.

(75) Ibid., n. 15.

(76) Ibid., n. 17.

(77) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14. Cf. Decr. Ad gentes, n. 7; Decr. Unitatis redintegratio, n. 3.

(78) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 9. Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 846´847.

(79) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 48.

(80) Cf. S. Cipriano, De catholicae ecclesiae unitate, 6: CCL 3, 253´254; S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 24, 1: SC 211, 472´474.

(81) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 10.

(82) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 2. É no sentido aqui explicado que se deve interpretar a conhecida fórmula extra Ecclesiam nullus omnino salvatur (cf. Conc. Lateranense IV, Cap. 1. De fide catholica: DS 802). Cf. ainda Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston: Denz., n. 3866´3872.

(83) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 7.

(84) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 18.

(85) São as sementes do Verbo divino (semina Verbi), que a Igreja reconhece com alegria e respeito (cf. Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 11; Decl. Nostra aetate, n. 2).

(86) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 29.

(87) Cf. ibid.; Catecismo da Igreja Católica, n. 843.

(88) Cf. Conc. de Trento, Decr. De sacramentis, can. 8, de sacramentis in genere: Denz., n. 1608.

(89) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55.

(90) Cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 17; João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 11.

(91) João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 36.

(92) Cf. Pio XII, Carta Enc. Mystici corporis, Denz., n. 3821.

(93) Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 14.

(94) Conc. Vaticano II, Decl. Nostra aetate, n. 2.

(95) Conc. Vaticano II, Decr. Ad gentes, n. 7.

(96) Catecismo da Igreja Católica, n. 851; cf. ainda nn. 849´856.

(97) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, n. 55; Exort. apost. Ecclesia in Asia, n. 31.

(98) Cf. Conc. Vaticano II, Decl. Dignitatis humanae, n. 1.

(99) Ibid.

(100) Cf. João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, n. 15.

(101) Ibid., n. 92.

(102) Ibid., n. 70.

OS PAPAS FALAM DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA!!!

Os papa falam sobre a Renovação Carismática


JOÃO XXIII

ORAÇÃO PELO VATICANO II


Podemos dizer que João XXIII foi precursor da Renovação Carismática. Sua é esta oração que compôs como preparação espiritual da Igreja ao trabalho do Concílio Vaticano II:

“Repita-se no povo cristão o espetáculo dos Apóstolos reunidos em Jerusalém, depois da ascensão de Jesus ao céu, quando a Igreja nascente se encontrou reunida em comunhão de pensamento e de oração com Pedro e em torno de Pedro, pastor dos cordeiros e das ovelhas. Digne-se o Divino Espírito escutar da forma mais consoladora a oração que sobe a Ele de todas as partes da terra. Que Ele renove em nosso tempo os prodígios como de um novo Pentecostes, e conceda que a Santa Igreja, permanecendo unânime na oração, com Maria, a Mãe de Jesus, e sob a direção de Pedro, dilate o Reino do Divino Salvador, Reino de Verdade e Justiça, Reino de amor e de paz”.

PAULO VI
PRIMEIRA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE LÍDERES

Em Grottaferrata, perto de Roma, de 8 a 12 de outubro de 1973 teve lugar a Primeira Conferência Internacional de Líderes da Renovação Carismática. Assistiram 120 dirigentes que procediam de 34 países. Entre eles contavam-se dois bispos. A Conferência dialogou em torno dos temas: Comunicação e união, liderança responsável, preparação para o Batismo no Espírito Santo, e unidade a nível de cada país. Além disso, houve vários seminários e mesas-redondas, e foi elaborado um documento cuja publicação foi aprovada pela Congregação da Defesa da Fé. Os delegados na audiência geral dada por Paulo VI no dia 10 de outubro entristeceram-se com o fato de que na audiência pontifícia não se tenha mencionado a Renovação; mas sua tristeza se mudou em gozo quando, ao terminar a audiência, se convidou, pelos alto-falantes, um grupo deles para que passasse a conversar reservadamente com o Papa. Foram designadas 13 pessoas, de 8 países. O Papa lhes dirigiu um breve discurso, que foi publicado no dia seguinte no Osservatore Romano, e dialogou espontaneamente com todos eles. No dia seguinte o Papa recebeu o Cardeal Suenens e se informou mais amplamente sobre a Renovação. As palavras do Sumo Pontífice na audiência do dia 10 foram as seguintes:

A Renovação na Igreja

“Estamos sumamente interessados no que estais fazendo. Ouvimos falar muito sobre o que acontece entre vós e nos regozijamos. Temos muitas perguntas e fazer-vos, mas não temos tempo.” Dirigimos agora uma palavra aos Congressistas de Grottaferrata: “Alegramo-nos convosco, queridos amigos, pela renovação de vida espiritual que hoje em dia se manifesta na Igreja, sob diferentes formas e em diferentes ambientes.”

Nesta renovação aparecem certas notas comuns:

- O gosto por uma oração profunda, pessoal e comunitária;
- Uma volta à contemplação e uma ênfase colocada na palavra de Deus;
- O desejo de entregar-se totalmente a Cristo;
- Uma grande disponibilidade às inspirações do Espírito Santo;
- Uma leitura mais assídua da Escritura;
- Uma ampla abnegação fraterna;
- Uma vontade de prestar uma colaboração aos serviços da Igreja.
Em tudo isso podemos conhecer a obra misteriosa e discreta do Espírito que é a alma da Igreja. A vida espiritual consiste antes de tudo no exercício das virtudes de fé, esperança e caridade. Ela encontra na profissão de sua fé seu fundamento.

Esta foi confiada aos pastores da Igreja para que a mantenham intacta e ajudem a desenvolvê-la em todas as atividades da comunidade cristã. A vida espiritual dos fiéis está, pois, sob a responsabilidade pastoral ativa de cada bispo em sua própria diocese. É particularmente oportuno recordar isso na presença destes fermentos de renovação que tantas esperanças suscitam.

Por outro lado, mesmo nas melhores experiências de renovação, a cizânia pode misturar-se com o trigo. Portanto, uma obra de discernimento é indispensável; a qual corresponde àqueles que têm esta missão da Igreja: “Cabe-lhes especialmente não extinguir o Espírito, mas provar tudo e ficar com o que é bom” (cfr. 1 Tim 5,12 e 19-22) (Lumen Gentium, n. 12). Deste modo progride o bem comum da Igreja ao qual se ordenam os dons do Espírito (cfr. 1Cor. 12,7).

“Faremos oração para que sejais cheios da plenitude do Espírito e vivais em sua alegria e santidade. Pedimos vossas orações e nos lembraremos de vós na Missa.”

Catequese de 1974

Em 10 de outubro de 1974, quando em Roma se celebrava o Sínodo dos bispos, o Papa Paulo VI se referiu à Renovação Carismática. Nesses dias tinha aparecido o livro de Cardeal Suenens intitulado: “Um Novo Pentecostes”.* O Papa o mencionou explicitamente, e completou o texto que trazia escrito com um extenso improviso. Os parágrafos improvisados foram gravados e difundidos pela Rádio Vaticana.

* Traduzido para o português por L.J. Gaio, sob o título: O Espírito Santo, Nossa Esperança; Ed. Paulinas, São Paulo, 1975.

O Novo Pentecostes

“A Igreja vive pela infusão do Espírito Santo, infusão que chamamos graça, isto é, Dom por excelência, caridade, amor do Pai comunicado a nós em virtude da Redenção realizada por Cristo, no Espírito Santo. Recordemos a síntese de Santo Agostinho: “o que a alma é para o corpo do homem, isso é o Espírito Santo para o Corpo de Cristo que é a Igreja”.

O Sopro Vital da Graça

Verdade conhecida. Todos ouvimos repetir e proclamar pelo recente Concílio: “Consumada a obra que o Pai confiara ao Filho para que Ele a realizasse sobre a terra, no dia de Pentecostes foi enviado o Espírito Santo para santificar continuamente a Igreja e assim dar aos crentes acesso ao Pai, por Cristo, num só Espírito. Este é o Espírito de vida ... O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo: neles ora e dá testemunho de que são filhos adotivos. Leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unifica-a na comunhão e no ministério, dota-a e dirige-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos, e embeleza-se com seus frutos. Com a força do evangelho a rejuvenesce e incessantemente a renova” ... (Lumen Gentium 4).

Um Novo Pentecostes

O que agora devemos afirmar é a necessidade da graça, isto é, de uma intervenção divina que supera a ordem natural, tanto para nossa salvação pessoal, como para o cumprimento do plano de redenção em favor de toda a Igreja e da humanidade que a misericórdia de Deus chama à salvação ... A necessidade da graça supõe uma carência imprescindível por parte do homem, supõe a necessidade de que o prodígio de Pentecostes tenha que continuar na história da Igreja e do mundo, e isso na dupla forma na qual o dom do Espírito Santo se concede aos homens: Primeiro para santificá-los; esta é a forma primária e indispensável para que o homem se converta em objeto de amor de Deus.

Mas agora eu diria que a curiosidade – mas uma curiosidade muito legítima e bela – se fixa em outro aspecto. O Espírito Santo quando vem outorga dons. Já conhecemos os sete dons do Espírito Santo. Mas dá também outros dons que agora se chamam ... bem (agora ... sempre) se chamam carismas. Que quer dizer carisma? Quer dizer dom: Quer dizer uma graça. São graças particulares dadas a alguém para outro, para que faça o bem. Alguém recebe o carisma da sabedoria para que chegue a ser mestre; e recebe o dom dos milagres para que possa realizar atos que, através da maravilha e da admiração, chamem à fé etc.

Agora essa forma carismática de dons que são dons gratuitos e de si não necessários, mas dados pela superabundância da economia do Senhor, que quer tornar a Igreja mais rica, mais animada e mais capaz de autodefinir-se e autodocumentar-se, denominar-se precisamente “a efusão dos carismas”. E hoje se fala muito disso. E, dada a complexidade e a delicadeza do tema, só podemos desejar que estes dons venham e oxalá venham em abundância. Que além da graça haja carisma que também hoje a Igreja de Deus possa possuir e obter. Os Santos, especialmente Santo Ambrósio e São João Crisóstomo, isto é, os padres, disseram que os carismas foram abundantes nos primeiros tempos.

O Senhor deu esta, chamemo-la grande chuva de dons, para animar a Igreja, para fazê-la crescer, para afirmá-la, para sustentá-la. E depois a economia desses dons foi, diria eu, mais discreta, mais ... econômica. Mas sempre existiram santos que realizaram prodígios, homens excepcionais existirem sempre na Igreja. Oxalá o Senhor aumente ainda mais a chuva de carismas para tornar fecunda, formosa e maravilhosa a Igreja, e capaz de impor-se até à atenção e ao estupor do mundo profano, do mundo laicizante.

Citaremos um livro que foi escrito precisamente neste tempo pelo cardeal Suenens, que se intitula: “Une nouvelle Pentecôte?” “Um novo Pentecostes?”. Ele descreve e justifica esta expectativa que pode ser realmente uma providência histórica na Igreja, de uma difusão maior de graças sobrenaturais, que se chamam carismas. Agora nos limitamos a recordar as principais condições que devem dar-se no homem para receber o dom de Deus por excelência que é precisamente o Espírito Santo; sabemos que Ele “sopra onde quer”, mas não rejeita o desejo de quem o espera, o chama e o acolhe (também quando este mesmo desejo procede de uma íntima inspiração sua). Quais são estas condições? Simplifiquemos a difícil resposta dizendo que a capacidade de receber este “doce hóspede da alma” exige fé, exige a humildade e o arrependimento, exige normalmente um ato sacramental; e na prática de uma vida religiosa requer o silêncio, o recolhimento, a escuta, e sobretudo a invocação, a oração, como fizeram os Apóstolos com Maria no Cenáculo. Saber esperar, saber invocar: “Vinde Espírito Criador, vinde Espírito Santo”. Se a Igreja souber entrar numa fase de tal predisposição para a nova e perene vinda do Espírito Santo, Ele, a “luz dos corações”, não tardará em conceder-se, para gozo, luz, fortaleza, virtude apostólica e caridade unitiva de que hoje a Igreja tem necessidade.Assim seja. Com nossa bênção apostólica.

Formação Teológica e Bíblica

Queridos filhos e filhas (de língua inglesa):

Com muito prazer vos saudamos no amor de Jesus Cristo e em seu nome vos oferecemos uma palavra de alento e exortação para vossas vidas cristãs.

Estais reunidos aqui em Roma, debaixo do signo do Ano Santo. Juntamente com toda a Igreja vos esforçais pela renovação, renovação espiritual, renovação autêntica, renovação católica, renovação no Espírito Santo. Agrada-nos ver sinais desta renovação: gosto pela oração, contemplação, louvor a Deus, atenção á graça do Espírito Santo e leitura mais assídua das Sagradas Escrituras. Sabemos também que desejais abrir vossos corações para a reconciliação com Deus e com vossos semelhantes.

A Vida Sacramental

Para todos nós, esta renovação e esta reconciliação são um desenvolvimento ulterior da graça da adoção divina, a graça do nosso batismo sacramental “em Cristo Jesus” e “em sua morte” (Rom 6,3) com o fim de “viver uma vida nova” (v. 4).

Daí sempre muita importância ao sacramento do batismo e às exigências que ele impõe. São Paulo é muito claro: “assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” (v. 11). Este é o grande desafio da vida sacramental cristã, na qual temos que alimentar-nos com o Corpo e Sangue de Cristo, renovar-nos com o sacramento da penitência, fortalecer-nos com o sacramento da confirmação e confortar-nos com a oração humilde e perseverante. Este é o chamado para que abrais os vossos corações aos irmãos necessitados. Não há limites para o desafio do amor. Os pobres, os necessitados, os aflitos e os que sofrem no mundo e a vosso lado, todos vos dirigem seu clamor como irmãos em Cristo, pedindo-vos a prova de vosso amor, pedindo a palavra de Deus, pedindo pão, pedindo vida. Querem ver um reflexo do amor imolado e generoso do próprio Cristo ao pai e aos irmãos.

Autenticidade Cristã

Sim, queridos filhos e filhas, é desejo de Cristo que o mundo veja vossas boas obras, a bondade de vossos atos, a prova de vossas vidas cristãs e que glorifique ao pai que está nos céus (Mt 5,16). Isto é renovação espiritual de verdade e somente pode conseguir-se mediante o Espírito Santo. Por isso não cessamos de exortar-vos veementemente a “aspirar pelos melhores dons” (1Cor 12,31). Este foi nosso pensamento ontem quando dissemos na solenidade de Pentecostes: “Sim, esta é uma data de alegria, mas também de resoluções e propósitos: Abrir-nos ao Espírito Santo, eliminar tudo o que se opõe à Sua ação e proclamar, na autenticidade cristã de nossa vida diária, que “Jesus é o Senhor”.

(Audiência de 19 de maio de 1975)

SEGUNDA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE LÍDERES

No Pentecostes de 1973, o Papa Paulo VI convocou a Igreja para celebrar, primeiro por todo o mundo e depois em Roma, o Ano Santo. O Papa escreveu então:

“Todos nós devemos colocar-nos a barlavento do sopro misterioso, ainda que agora, de certo modo identificável, do Espírito Santo. Não é sem significado o fato de que, precisamente no dia feliz de Pentecostes, o ano santo enfune suas velas em cada uma das Igrejas Locais, a fim de que uma nova navegação, um novo movimento verdadeiramente pneumático, isto é, carismático, impulsione numa única direção e em concorde emulação a humanidade crente para as novas metas da história cristã, para seu porto escatológico.

Para celebrar o Ano Santo, os integrantes da Renovação Carismática quiseram reunir-se em Roma, num grande encontro internacional, de 16 a 19 de maio de 1975. Foram 10.000 os peregrinos que celebraram “a Renovação e a Reconciliação” nos campos limítrofes das Catacumbas de São Calixto. Acompanharam-nos dois cardeais e dez bispos. Alguns dias antes de 12 a 15 de maio, nas instalações de “Domus Pacis” se havia reunido o Segundo Congresso Internacional de Líderes da Renovação Carismática.

Ao se reunirem em Roma, os integrantes da Renovação quiseram dar um testemunho de sua fé e fidelidade à Igreja e ao Papa, exprimir o desejo de serem dóceis para que o Espírito Santo os usasse como instrumentos para a Renovação da Igreja, celebrar na oração a festividade de Pentecostes, junto ao sucessor de Pedro, e aproveitar gozosamente o ano santo como graça para cada um deles, para a Igreja e para o mundo.

O documentário “Alabaré” recolheu as recordações destas reuniões, e sobretudo o júbilo transbordante dos congressistas quando, cerca de meio-dia de 19 de maio, o Papa Paulo VI entrou na Basílica de São Pedro, entre uma tempestade de relâmpagos luminosos, desencadeada por milhares de câmaras fotográficas, no meio de jubilosos cânticos de aleluia e de louvor.

O Papa pronunciou quatro discursos: em francês, em inglês, espanhol e italiano. Se João XXIII tinha aberto as janelas da Igreja ao vento renovador, Paulo VI abria as portas de par em par.

A AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO NA IGREJA

Neste Ano Santo escolhestes a cidade de Roma para celebrar o vosso III Congresso Internacional, amados filhos e queridas filhas. Vós nos pedistes para que nos encontrássemos hoje convosco e que vos dirigíssemos a palavra: dessa forma quisestes manifestar vossa adesão à Igreja instituída por Jesus Cristo e a tudo o que para vós representa esta sede de Pedro. Este interesse por situar-vos dentro da Igreja é sinal autêntico da ação do Espírito Santo. Pois Deus se fez homem em Jesus Cristo, cujo corpo místico é a Igreja, na qual foi comunicado o Espírito de Cristo no dia de Pentecostes, quando desceu sobre os Apóstolos reunidos no “andar superior”, “perseverando unânimes na oração”, “com Maria, mãe de Jesus” (cfr. At 1, 13-14).

O Prodígio de Pentecostes se prolonga na História

No mês de outubro último, dissemos, na presença de alguns de vós, que a Igreja e o mundo têm necessidade mais do que nunca que “o prodígio de Pentecostes se prolongue na história” (L’Osservatore Romano, Edição em língua espanhola, 20 de outubro de 1974, p. 2). Com efeito o homem moderno, embriagado por suas conquistas, chegou a crer, para dizê-lo com palavras do último Concílio, que “ele é seu próprio fim, o único artífice e demiurgo de sua própria história” (Gaudium et Spes, 20,1). Infelizmente, para todos aqueles que, por tradição, continuam professando a sua existência e, por dever, continuam prestando-lhe culto, Deus se converteu em algo alheio à sua vida.

Para um mundo assim, cada vez mais secularizado, não há nada mais necessário do que o testemunho desta “renovação espiritual” que o Espírito Santo suscita hoje visivelmente nas regiões e ambientes mais diversos. As manifestações desta renovação são variadas: comunhão profunda das almas, contato íntimo com Deus na fidelidade aos compromissos assumidos no batismo, na oração com freqüência comunitária, onde cada um, exprimindo-se livremente, ajuda, sustenta e fomenta a oração dos outros, tudo fundamentado numa convicção pessoal, derivada não só da doutrina recebida pela fé, mas também de certa experiência vivida, a saber, que sem Deus o homem nada pode, e que com Ele, pelo contrário, tudo é possível, daí essa necessidade de louvá-lo, dar-lhe graças, celebrar as maravilhas que realiza por toda parte em torno de nós e em nós mesmos. A existência humana encontra sua relação com Deus, a chamada “dimensão vertical”, sem a qual o homem está irremediavelmente mutilado. Não é que a busca de Deus se mostre como um desejo de conquista ou de posse: essa busca quer ser pura acolhida Àquele que nos ama e se nos entrega livremente desejando, porque nos ama, comunicar-nos uma vida que devemos receber gratuitamente dele, mas não sem humilde fidelidade de nossa parte E essa fidelidade tem que saber reunir a fé e as obras, segundo a doutrina de Tiago: “Pois como o corpo sem o espírito está morto, assim também está morta a fé sem as obras” (Tg 2,26).

Então, esta “renovação espiritual”, como poderia deixar de ser uma “sorte” para a Igreja e para o Mundo? E neste caso, como não adotar todos os meios para que continue a sê-lo. Estes meios, queridos filhos e filhas, vos serão indicados pelo Espírito Santo, de acordo com a prudência daqueles aos quais “Ele mesmo constituiu bispos para apascentar a Igreja de Deus” (At 20,28). Porque o Espírito Santo é quem inspirou a São Paulo algumas diretrizes precisas, que nos contentaremos em recordar-vos. Segui-las fielmente será vossa maior garantia para o futuro. Sabeis quanta importância dava o Apóstolo aos “dons espirituais”: “Não apagueis o Espírito”, escrevia aos tessalonicenses (1 Tes 5,9), acrescentando a seguir: “Provai tudo e ficai com o que é bom” (id. 5,21). Portanto, considerava que sempre é necessário um discernimento e confiava sua vigilância aos que tinha posto à frente da comunidade (cfr. 5,12). Com os Coríntios, alguns anos depois, entra em mais detalhes; assinala-lhes sobretudo três princípios, à luz dos quais poderão efetuar com maior facilidade esse discernimento indispensável.

A Doutrina de São Paulo sobre os Carismas

O primeiro, com o que começa a sua exposição, é a fidelidade à doutrina autêntica da fé (cfr. 1Cor 12, 1-3). O que contradiz esta doutrina não pode vir do Espírito Santo: aquele que distribui seus dons é o mesmo que inspirou a Escritura e assiste o magistério vivo da Igreja, à qual, segundo a fé católica, Cristo confiou a interpretação autêntica da Escritura (cfr. Dei Verbum, 10). Por isso sentis a necessidade de uma formação doutrinal cada vez mais profunda: bíblica, espiritual, teológica. Somente uma formação assim, cuja autenticidade e hierarquia tem que garantir, vos preservará dos desvios sempre possíveis e vos proporcionará a certeza e o gozo de ter servido a causa do Evangelho “não como quem açoita o ar” (1 Cor 9,26). Segundo princípio: Todos os dons espirituais devem ser recebidos com gratidão; e vós sabeis que sua enumeração é longa (cfr. 1Cor 12,4-10. 28-30), sem aliás pretender ser completa (cfr. Rom 12, 6-8; Ef. 6,11). Todavia, concedidos “para comum utilidade” (1Cor 2,7), nem todos contribuem para ela no mesmo grau. Por isso os coríntios devem aspirar “aos melhores dons” (id. 12,31), os mais úteis à comunidade (id. 14, 1-5). O terceiro princípio é mais importante no pensamento do Apóstolo. Ele sugeriu uma das páginas mais belas de todas as literaturas, à qual um autor recente deu o título evocador: “Acima de tudo paira o amor” (E. Osty).

Todos os Dons do Espírito se ordenam ao Amor

Por mais desejáveis que sejam os dons espirituais – e são, sem dúvida – somente o amor de caridade, a ágape, torna perfeito o cristão, só ele torna o homem “agradável a Deus”, gratia gratum faciens, dirão os teólogos. Porque esse amor não só supõe o dom do Espírito; implica também a presença ativa de sua Pessoa no coração do cristão. Comentando estes versículos, os Padres da Igreja o explicam sem cessar. Segundo São Fulgêncio, para citar apenas um exemplo, “o Espírito Santo pode conferir toda classe de dons sem estar presente Ele mesmo; ao contrário, quando concede o amor, prova que Ele mesmo está presente pela graça”, se ipsum demonstrat per gratiam praesentem, quando tribuit caritatem (Contra Fabianum, fragmento 28; PL 65,791). Presente na alma, juntamente com a graça lhe comunica a própria vida da Santíssima Trindade, o próprio amor com o qual o Pai ama seu Filho no Espírito (cfr. Jo 17,26), o amor com que Cristo nos amou e com que nós, de nossa parte, podemos e devemos amar os nossos irmãos (cfr. Jo 13,34) “não de palavra nem de língua, mas de fato e de verdade” (1Jo 3,18).

Caridade Operante

Sim, pelos frutos se conhece a árvore, e São Paulo nos diz que “os frutos do Espírito são: caridade, gozo, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fé” (Gál. 5,22), tal como o descreve em seu hino ao amor. A ele se ordenam todos os dons que o Espírito Santo distribui a quem Ele quer, pois o que constrói é o amor (cfr. 1Cor 8,1), como foi o amor que, depois de Pentecostes, fez dos primeiros cristãos uma comunidade: “Perseveram em ouvir o ensinamento dos apóstolos” (At 2,42), “tinham um só coração e uma só alma” (id. 4,32). Segui fielmente estas diretrizes do grande Apóstolo. E, segundo a doutrina do mesmo Apóstolo, sede fiéis também à celebração freqüente e digna da Eucaristia (cfr. 1Cor 26,29). É o meio escolhido pelo Senhor para que tenhamos sua vida em nós (cfr. Jo 6,53). Da mesma forma, aproximai-vos também com confiança do sacramento da reconciliação. Estes sacramentos manifestam que a graça nos vem de Deus através da mediação necessária da Igreja.

Caros filhos e filhas: com a ajuda do Senhor, contando com a intercessão de Maria, Mãe da Igreja, e na comunhão de fé, de caridade e de apostolado com vossos pastores, estareis certos de não equivocar-vos. E dessa forma contribuireis por vossa parte para a renovação da Igreja, que é a renovação do mundo. Jesus é o Senhor! Aleluia!

Comunhão Eclesial

Mui amados filhos e filhas:

Por ocasião de vosso terceiro congresso internacional, quisestes vir aqui demonstrar vossa adesão à Igreja e à Sede de Pedro. Esse desejo de inserir-vos na Igreja é um sinal autêntico da ação do Espírito, que age nela, Corpo Místico de Cristo.

Toda a renovação espiritual de que a Igreja e o mundo necessitam hoje deve partir dessa sólida base de comunhão eclesial, que é a comunhão de espíritos e de propósitos numa fidelidade absoluta à doutrina da fé. Daí deverá brotar a busca dos meios para tornar Deus presente às consciências. Presença que deve alimentar-se com um aumento do cultivo dos valores sobrenaturais, do contato íntimo com Deus e da oração, que façam o homem transcender o humano para colocá-lo na verdadeira panorâmica diante de Deus e dos outros.

Colaborai dessa forma para construir a Igreja.

Recebei o Espírito Santo com Alegria

Seja-me permitido dizer uma palavra também em italiano, ou melhor, duas palavras, uma para vós, peregrinação carismática, e uma para os outros peregrinos que ocasionalmente se encontram presente nesta grande assembléia.

A primeira para vós:

Refleti no binômio que forma vossa definição. Onde entra o Espírito, estejamos imediatamente atentos, imediatamente felizes por saudar a vinda do Espírito Santo. Nós o convidamos, o queremos, o desejamos antes de tudo: que o povo cristão, o povo crente tenha dessa presença do Espírito de Deus em nós, um pressentimento, um culto, uma alegria superior.

Tínhamos esquecido o Espírito Santo? Certamente não. Nós o queríamos, o honrávamos, o louvávamos e o convidávamos ... e vós, com vossa devoção, com vosso fervor, quereis viver desse Espírito Santo. Deve dar-se uma renovação, um rejuvenescimento do mundo. Deve dar-se de novo uma espiritualidade, uma alma, um pensamento religioso ao mundo, devem abrir-se de novo os lábios fechados à oração, abrir-se ao cântico, à alegria, ao hino, ao testemunho.

Será verdadeiramente uma grande sorte para o nosso tempo e para os nossos irmãos que haja toda uma geração, vossa geração de jovens, que grite ao mundo as grandezas de Deus no Pentecostes.

No hino de Laudes que líamos esta manhã no breviário – e é um hino que vem nada menos do que de Santo Ambrósio, no século IV -, há uma expressão: Vou traduzi-la; aliás é muito simples:

Laeti: isto é, com alegria; bibamus: absorvamos; sobriam: o que quer dizer bem identificada, bem medida; profusionem Spiritus: a profusão do Espírito.

“Laeti bibamus sobriam profusionem Spiritus” pode ser uma fórmula que assinale a vosso movimento um programa... A segunda palavra para os peregrinos presentes que não pertencem ao vosso movimento: Para que eles também se associem na celebração da festa de Pentecostes para a renovação espiritual do mundo, de nossa sociedade, de nossas almas... Vieram como peregrinos, devotos a este centro da fé católica e alimentar-se do entusiasmo e da energia espiritual com que devemos viver nossa religião.

Nós vos diremos somente isto: hoje, ou se vive com devoção, com profundidade, com alegria e com gozo a própria fé, ou então se perde esta mesma fé.

CARTA AO CARDEAL SUENENS

Ao nosso venerável Irmão
Leo Josef Suenens, Arcebispo de Malinas – Bruxelas

Tomamos conhecimento com muita atenção da carta que vos dirigistes, em 15 de abril passado, com relação ao Movimento da Renovação Carismática.

Se não pudemos manifestar-vos tão rapidamente quanto tínhamos desejado a nossa satisfação pelo atento cuidado com que velais por assegurar uma plena integração deste Movimento na vida da Igreja Católica, sentimo-nos felizes em dizer-vos hoje o quanto apreciamos este esforço. Pedimos ao Senhor que vos cumule de sua graça neste serviço eclesial, e vos renovamos de coração a nossa afetuosa Bênção Apostólica.

Cidade do Vaticano, 27 de maio de 1978.

Paulo, pp. VI

TELEGRAMA À TERCEIRA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE LÍDERES

Por motivo da Terceira Conferência Internacional de Líderes da Renovação Carismática, reunida em Dublin, em junho de 1978, o Papa Paulo VI fez enviar por meio do cardeal Jean Villoto o seguinte telegrama: Cidade do Vaticano, 18 de junho de 1978.

“O Santo Padre envia saudações de alegria e paz aos que tomam parte na Conferência Internacional de Renovação Carismática da Igreja Católica. Dá graças a Deus pelos dons divinos que agem na vida de muitos filhos e filhas da Igreja Católica.

Sua Santidade ora para que os grandes frutos do Espírito Santo sustentem os participantes numa vida cristã genuinamente sacramental, levando-os a crescer de maneira sensível segundo as necessidades imensas de todo o Corpo de Cristo e confirmando-os numa total colaboração com a Hierarquia e na unidade eclesiástica com a Igreja inteira.

Também ora para que por meio da efusão do Espírito Santo, o testemunho evangélico de todos os participantes seja perfeito, de tal sorte que possam proclamar efetivamente na autenticidade cristã de suas vidas diárias que Jesus é Senhor.

Com estes sentimentos o Santo Padre com prazer envia sua “bênção apostólica”.

JOÃO PAULO I CARTA AO CARDEAL JOSÉ SUENENS

Nos curtos 33 dias de Pontificado, o Papa João Paulo I não chegou a se pronunciar sobre a Renovação Carismática; todavia, o Cardeal José Suenens revelou a carta de 10 de dezembro de 1974 que o Patriarca de Veneza, Albino Luciani, lhe havia enviado, referente ao livro “Um Novo Pentecostes”.

... na página 260 de teu livro, dizes: “Tudo está mal expresso”. Eu penso o contrário: “Foi expresso extremamente bem”.

Tens o dom de escrever de modo que atrai, interessa e convence o leitor. Isso se refere somente ao estilo. Quanto ao conteúdo, confesso que enquanto lia me senti forçado a reler, com novo olhar, os textos de São Paulo e dos Atos dos Apóstolos, textos que eu julgava saber.

Teu livro foi e será uma valiosa orientação para mim, por me ter feito ler novamente os Atos. Obrigado pelo bem que fizestes à minha alma e pelo serviço que prestasse à Igreja através de tua inspiração...”

JOÃO PAULO II
AUDIÊNCIA AO CONSELHO INTERNACIONAL

No dia 11 de dezembro de 1979, o Papa João Paulo II recebeu em audiência especial o Cardeal José Suenens, o bispo Alfonso Uribe e os membros do Conselho Internacional da Renovação Carismática. A audiência teve uma duração de hora e meia, e começou com a projeção de um documentário sobre a Renovação. Quando a projeção terminou, o Pontífice exprimiu sua satisfação dizendo:

“Obrigado. Foi uma expressão de fé. Sim, o cântico, as palavras e os gestos. É ... como dizê-lo? Posso dizer que é uma revolução desta expressão vital. Dizemos que a fé é assunto da inteligência, e às vezes também do coração. Mas esta dimensão expressiva da fé estava ausente. Esta dimensão da fé era reduzida, muito escassa. Agora podemos dizer que este movimento está em todas as partes, também em meu país. Mas é diferente. Na Polônia não é tão expressivo. Posso dizer que na Polônia a mentalidade é a mesma, mas em outra edição”.

Depois dessas palavras vieram as saudações, as informações e um diálogo informal muito amável referente aos diversos aspectos da Renovação, e alguém sugeriu ao Papa se deseja indicar normas de ação para os carismáticos. Então o Papa fez os seguintes comentários:

“Este é meu primeiro encontro convosco, católicos carismáticos, de modo que ainda não posso responder a este pedido. Seja-me permitido, primeiro, explicar minha própria vida carismática. Eu sempre pertenci a esta renovação no Espírito Santo. Minha primeira experiência foi muito interessante. Quando estava na escola, tinha mais ou menos doze ou treze anos, às vezes tinha dificuldade em meus estudos, particularmente com as matemáticas. Meu pai me deu um livro de oração, abriu-o numa página e me disse: Aqui tens a oração do Espírito Santo. Deves dizer esta oração todos os dias de tua vida. Permaneci obediente a esta ordem que meu pai me deu há uns 50 anos, que creio não seja pouco tempo. Esta foi minha primeira iniciação espiritual, de maneira que posso entender o que se relaciona com os diferentes carismas. Todos eles são partes da riqueza do Senhor. Estou convencido de que este movimento é um sinal de sua ação. O mundo tem muita necessidade desta ação do Espírito Santo, e de muitos instrumentos para esta ação.

A situação no mundo está muito perigosa. O materialismo se opõe à verdadeira dimensão do poder humano, todas as diferentes classes do materialismo. O materialismo é uma negação do espiritual, e é por isso que necessitamos da ação do Espírito Santo. Agora eu vejo este movimento, esta atividade por todas as partes. Em meu próprio país vi uma presença especial do Espírito Santo. Através dessa ação. O Espírito Santo vem ao espírito humano, e a partir desse momento começamos novamente a viver, a encontrar-nos conosco mesmos, a encontrar a nossa identidade, nossa total humanidade. De maneira que estou convencido de que este movimento é um importante componente dessa total renovação da Igreja, dessa renovação espiritual da Igreja”.

Ao concluir esta intervenção, houve um tempo dedicado à oração e ao cântico. Depois perguntamos ao papa por que intenções devíamos rezar, e ele respondeu: “Peçam pelos povos que não podem exprimir-se, pelos que sofrem perseguições, de acordo com as leis, os que não podem exprimir sua fé em Cristo. Procurem tê-los em vossos corações”.

Um ano mais tarde, ao escrever-lhe uma carta perguntando-lhe se se devia continuar orando pelas mesmas intenções, D. Eduardo Martínez, Substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, respondeu assim em nome do Papa: “Sua Santidade deseja reafirmar sua profunda gratidão pelo apoio fervente da Renovação Carismática em todo mundo, e ao mesmo tempo agradecer a promessa de lealdade e solidariedade na fé. O Santo Padre deseja que continuem orando pelas intenções que já lhes fizera conhecer, pois as mesmas permanecem junto ao seu coração, e são muito importantes para a missão da Igreja”.

AUDIÊNCIA AOS CARISMÁTICOS DA ITÁLIA

No domingo do dia 23 de novembro de 1980, imediatamente depois do “Angelus” do meio-dia, João Paulo II recebeu 18.000 membros do Movimento Nacional Italiano de “Renovação no Espírito”, que tinham vindo a Roma de diferentes partes do país, como representantes dos 480 grupos espalhados por toda a Itália. A audiência teve lugar na Sala Paulo VI. No vestíbulo receberam o Papa alguns representantes de diferentes regiões e lhe ofereceram dons típicos do campo e do artesanato. Uma vez na Sala, o Santo Padre ouviu vários cânticos e depois pronunciou estas palavras:

A Presença de Cristo em Nós

Caríssimos irmãos e irmãs:

1. Obrigado, antes de tudo, por esta alegre visita e, particularmente, pelas orações que elevastes ao Senhor por mim e pelas responsabilidades de meu serviço pastoral. Eu vos direi com São Paulo que tinha “um vivo desejo de ver-vos, para comunicar-vos algum dom espiritual a fim de confirmar-vos, ou melhor, para consolar-me convosco de nossa comum fé” (Rom 1, 11-12).

Nesta manhã tenho a alegria de encontrar-me com vossa assembléia, na qual vejo jovens, adultos, anciãos, homens e mulheres, solidários na profissão da mesma fé, animados pelo alento de uma mesma esperança, estreitados juntamente com os vínculos dessa caridade que “se derramou em nossos corações pela virtude do Espírito Santo, que nos foi dado” (Rom 5,5). Nós sabemos que devemos a esta “efusão do Espírito” uma experiência cada vez mais profunda da presença de Cristo, graças à qual podemos crescer cada dia no conhecimento amoroso do Pai. Portanto, justamente vosso movimento presta particular atenção à ação misteriosa, mas real que a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade desenvolve na vida do cristão.

2, As palavras de Jesus no Evangelho são explícitas: ”Eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Confortador, para estar convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós, porém, o conheceis, porque habita entre vós e em vós estará” (Jo 14, 16-17).

A Efusão Pentecostal do Espírito Santo

Antes de subir ao céu, Jesus renova aos Apóstolos a promessa de que serão batizados “no Espírito Santo” (At 1,5) e, cheios de seu poder (cfr. At 2,2), darão testemunho dele em todo mundo, falando em línguas estranhas segundo o Espírito lhes dava (cfr. At 2,4). No livro dos Atos, o Espírito Santo se apresenta ativo e operante naqueles cujas gestas se narram, seja como guias da comunidade (cfr. At 2, 22-36; 4, 5-22; 5,31; 9,17; 15, 28 etc) ou simples fiéis (cfr. At 4, 31-37; 10, 45-47; 13,50-52 etc).

Não é de estranhar que os cristãos de então tirassem dessas experiências a convicção íntima de que “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é de Cristo” (Rom 8,9); e por isso se sentissem comprometidos a não “apagar o Espírito” (1Tes 5,19), a “não entristecê-lo” (cfr. 4,30), mas a “deixar-se guiar” por Ele (Gál. 5,18), sustentados pela esperança de que “quem semeia no Espírito colherá a vida eterna” (Gál. 6,8).

Com efeito, Cristo confiou ao Espírito a missão de levar a cabo a “nova criação” à qual ele mesmo deu início com sua ressurreição. Do Espírito, pois, deve-se esperar a progressiva regeneração do cosmos e da humanidade, entre o “já” da Páscoa e o “ainda não” da Parusia.

É importante que também nós, cristãos a quem a Providência colocou para viver nos anos conclusivos desse segundo milênio, reavivamos a íntima consciência dos misteriosos caminhos através dos quais ela leva avante seu desígnio de salvação. Deus se comunicou irrevogavelmente em Cristo. Todavia, por meio do Espírito vive e age o Ressuscitado permanentemente no meio de nós e pode tornar-se presente em cada “aqui” da experiência humana há história.

Com gozo profundo e gratidão emocionada renovamos portanto, nosso ato de fé em Cristo Redentor, sabendo bem que “ninguém pode dizer Jesus é o Senhor, senão no Espírito Santo” (1 Cor 12,3). É Ele que nos reúne num só corpo na unidade da vocação cristã e na multiplicidade dos carismas. É Ele que opera a santificação e a unidade da Igreja (cfr. Pontifical Romano, Rito de Confirmação, n. 25-47).

3. O Concílio Vaticano II dedicou uma atenção particular à multiforme ação do Espírito na história da salvação: sublinhou a “Admirável providência” com que Ele impulsiona a sociedade a progredir para metas cada vez mais avançadas de justiça, amor e liberdade (cfr. Gaudium et Spes, 26); ilustrou sua presença operante na Igreja, que é solicitada por Ele para realizar o plano divino (cfr. Lumen Gentium, 17) mediante uma compreensão cada vez mais profunda da Revelação (cfr. Dei Verbum, 5,8,4,40 etc) e de comunhão na caridade (cfr. Lumen Gentium 13; Unitatis Redintegratio, 2,4), finalmente sublinhou sua ação em cada um dos fiéis, que Ele estimula a um corajoso testemunho apostólico (cfr. Apostolicam Actuositatem, 3), fortalecendo-os por meio dos sacramentos e enriquecendo-os de “graças especiais, com as quais os torna aptos e prontos para exercer diversas obras e funções, úteis para a renovação e a maior expansão da Igreja” (Lumen Gentium 12).

Oração, Testemunho e Serviço

Que perspectivas amplas se abrem filhos queridos, diante de nossos olhos? Certamente, não faltam riscos, porque a ação do Espírito se desenvolve em “vasos de barro” (cfr. 2Cor 4,7), que podem reprimir sua livre expansão. Vós conheceis quais são: uma excessiva importância dada, por exemplo, à experiência emocional do divino; a busca desmedida do “espetacular” e do “extraordinário”; o ceder a interpretações apressadas e desviadas da Escritura; um debruçar-se sobre si mesmo que foge do compromisso apostólico, a complacência narcisista que se isola e se fecha. Estes e outros são os perigos que surgem em vosso caminho, e não só no vosso. Dir-vos-ei com São Paulo: “Provai tudo e ficai com o que é bom” (1 Tes 5,21). Isto é, permanecei em atitude de constante e agradecida atividade para todo dom que o Espírito deseja difundir em vossos corações, mas não esquecendo, contudo, que não há carisma que não seja dado “para utilidade comum” (1 Cor 12,7). Aspirai, em todo caso, aos “carismas melhores” (id. V. 31).

E vós sabeis, a este propósito, qual é “o caminho melhor” (id.); numa página estupenda, São Paulo assinala este caminho da caridade, que, por si só, dá sentido e valor aos outros dons (cfr. 1 Cor 13). Animados pela caridade, não só vos colocareis em espontânea e dócil escuta daqueles “a quem o Espírito Santo constituiu bispos para apascentar a Igreja de Deus” (At 20,28), mas sentireis também a necessidade de abrir-vos a uma compreensão cada vez mais atenta dos outros irmãos com o desejo de chegar a ter com eles verdadeiramente “um só coração e uma só alma” (AT 4,32). Daqui brotará a autêntica renovação da Igreja, que o Concílio Vaticano II desejou e que vós tratais de facilitar com a oração, com o testemunho, com o serviço. A “renovação no Espírito”, efetivamente, lembrei na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, “terá uma verdadeira fecundidade na Igreja, não tanto na medida em que subsistem carismas extraordinários, quanto na medida em que se conduz o maior número possível de fiéis, em sua vida cotidiana, a um esforço humilde, paciente e perseverante para conhecer sempre melhor o mistério de Cristo e dar testemunho dele” (n. 72).

Ao invocar sobre vós e sobre vosso compromisso a amorosa e assídua proteção daquela que “por obra do Espírito Santo concebeu em seu seio e deu à luz o Filho de Deus encarnado” (cfr. Lc 1,35), vos concedo de coração minha bênção apostólica, que com prazer estendo aos que fazem parte do Movimento e a todas as pessoas que vos são caras no Senhor.

QUARTA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE LÍDERES

Por ocasião do Quarto Congresso Internacional de Dirigentes da Renovação Carismática, na semana de 4 a 10 de maio de 1981, o Papa João Paulo II recebeu em cinco oportunidades participantes desse Congresso. Deu uma audiência ao Cardeal Suenens, almoçou com integrantes do Conselho Internacional, participou de uma Assembléia de Oração, celebrou a Eucaristia com alguns sacerdotes e convidou a cear com ele os delegados da Polônia.

A Assembléia de Oração teve lugar nos jardins do Vaticano, na quinta-feira de 7 de maio, das 8 às 9,30 da noite. Presididos pelo Papa, os carismáticos oraram, cantaram, ouviram a Palavra de Deus e também a palavra de quem em nome de Jesus Cristo pastoreia a Igreja.

Os 600 delegados ao Congresso provinham de quase cem países. Seu número e variedade mostrava a extensão extraordinária e a grande vitalidade que em poucos anos alcançou a Renovação Carismática. A alegria com que acolheram as orientações do Pontífice, que a seguir se transcrevem, e a decisão de levá-las à prática, marca sem dúvida uma etapa na vida da Renovação.

Caros irmãos e irmãs em Cristo:

Na alegria e na paz do Espírito Santo, quero dar as boas-vindas a vós que viestes a Roma para participar da IV Conferência Internacional de dirigentes da Renovação Carismática Católica; ao mesmo tempo, elevo a minha oração para que “a graça do Senhor Jesus Cristo e a caridade de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Cor 13,13).

1. O fato de ter escolhido Roma como lugar desta Conferência é um indício especial da importância que tem para vós o estar arraigado nesta unidade católica de fé e caridade que tem seu centro visível na Sede de Pedro. Diante de vós vai a vossa fama, como aquela que celebrava o Apóstolo Paulo em seus queridos Filipenses e que o moveu a começar a Carta que lhes dirige com sentimentos que eu me alegro em poder evocar agora: “Sempre que me lembro de vós dou graças a Deus ... Por isso rogo que vossa caridade cresça mais e mais em conhecimento e em toda discrição, para que saibais discernir o melhor e sejais puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo” (Flp 1, 3.9-10).

Princípios para guiar o Discernimento

2. Em 1975, meu venerável predecessor Paulo VI falou ao Congresso carismático internacional, reunido em Roma, e sublinhou os três princípios apontados por São Paulo para guiar o discernimento, de acordo com a exortação: “Provai tudo e ficai com o que é bom” (1 Tes 5,21). O primeiro desses princípios é fidelidade à doutrina autêntica da fé; tudo o que contradiz essa doutrina não procede o Espírito. O segundo princípio é apreciar, os dons mais excelsos, os dons que são outorgados para o serviço do bem comum. E o terceiro princípio é ir empós da caridade, a única que pode levar o cristão até à perfeição: como diz o Apóstolo: “Acima de tudo isso, vesti-vos da caridade que é um vínculo de perfeição” (Col. 3,14). Não é menos importante para mim neste momento ressaltar estes princípios fundamentais para vós, a quem Deus chamou a servir como dirigentes da Renovação.

O Papa Paulo descreveu o Movimento para a Renovação como “uma sorte para a Igreja e para o mundo”, e os seis anos que se passaram desde aquele Congresso vieram confirmar a esperança que animava seu pensamento. A Igreja viu os frutos de vosso zelo pela oração num firme compromisso de santidade de vida e de amor à Palavra de Deus. Constatamos com especial alegria a maneira pela qual os dirigentes da Renovação desenvolveram cada vez mais uma ampla visão eclesial, esforçando-se ao mesmo tempo para fazer dessa visão uma realidade crescente para quantos dependem deles em sua direção. Vimos também os sinais de vossa generosidade na comunicação dos dons recebidos de Deus com os desamparados deste mundo, na justiça e na caridade, de maneira que todos podem descobrir a excelsa dignidade que têm e Cristo. Oxalá esta obra de amor começada já em vós seja levada felizmente a plenitude! (cfr. 2Cor 8,6-11). A este propósito, recordai sempre as palavras dirigidas por Paulo VI ao vosso congresso no Ano Santo: “não há limites para o desafio do amor: os pobres, os necessitados, os aflitos e os que sofrem no mundo e ao vosso lado, todos vos dirigem seu clamor como irmãos e irmãs de Cristo, pedindo-vos a prova do vosso amor, pedindo a Palavra de Deus, pedindo pão, pedindo vida” (L’Osservatore Romano, Edição em Língua Espanhola, 25 de maio de 1975, p. 10).

Tarefa dos Dirigentes e Papel do Sacerdote

3. Sim, sinto-me verdadeiramente feliz em ter esta oportunidade para falar-vos de coração aberto, a vós que viestes de todo o mundo para participar desta Conferência estabelecida par assistir-vos no cumprimento de vossa tarefa como dirigentes da Renovação carismática. De modo especial quero assinalar a necessidade de enriquecer e de tornar realidade essa visão eclesial que é tão essencial para a Renovação nesta etapa de seu desenvolvimento. A tarefa do dirigente é, em primeiro lugar, dar exemplo de oração em sua própria vida. Com uma esperança confiante, com uma solicitude abnegada, cabe ao dirigente procurar que o rico e variado patrimônio da vida de oração próprio da Igreja seja reconhecido e experimentado por aqueles que buscam a renovação espiritual: meditação da Palavra de Deus, dado que “a ignorância da Escritura é ignorância de Cristo”, como costumava repetir São Jerônimo; abertura aos dons do Espírito Santo, sem buscar exageradamente os dons extraordinários; imitando o exemplo do próprio Jesus que reservava tempo para orar a sós com Deus; aprofundando mais no ciclo dos tempos litúrgicos da Igreja, sobretudo mediante a Liturgia das Horas, a devida celebração dos sacramentos – com uma atenção muito especial para o sacramento da penitência – que operam a nova dispensação da graça, de acordo com a própria vontade de Cristo; e sobretudo um amor e um conhecimento crescente da Eucaristia como centro de toda oração cristã. Pois, como nos assinala o Concílio Vaticano II, “a Eucaristia aparece como a fonte e o cume de toda a pregação evangélica; os catecúmenos são pouco a pouco introduzidos na participação da Eucaristia, e os fiéis, já assinalados pelo sagrado Batismo e pela Confirmação, são plenamente inseridos no Corpo de Cristo pela recepção da Eucaristia” (Presbyterorum Ordinis, 5).

Em segundo lugar, cabe-vos proporcionar alimento sólido para o sustento espiritual mediante a distribuição do pão da verdadeira doutrina. O amor à Palavra revelada de Deus, escrita sob a direção do Espírito Santo, é um sinal de que desejais “permanecer firmes no Evangelho” pregado pelos Apóstolos. Como nos ensina a Constituição dogmática sobre a Divina revelação, “para que o homem possa compreender cada vez mais profundamente a Renovação, o Espírito Santo aperfeiçoa constantemente a fé com os seus dons” (Dei Verbum, 5). O Espírito Santo, que reparte seus dons em maior ou menor medida, é o mesmo que inspirou as Escrituras e que assiste o Magistério vivo da Igreja, à qual Cristo confiou a interpretação autêntica das mesmas Escrituras (cfr. Alocução de Paulo VI, de 19 de maio de 1975), de acordo com a promessa de Cristo aos Apóstolos: “E eu pedirei ao Pai e ele vos dará outro Confortador, para estar convosco para sempre, o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós, porém, o conheceis, porque habita entre vós e em vós estará” (Jo 14, 16-17).

Deus quer, portanto, que todos os cristãos cresçam no conhecimento do mistério da salvação, o qual nos revela cada vez mais as coisas referentes à dignidade intrínseca do homem. Quer também que vós, que sois dirigentes desta Renovação, estejais cada vez mais solidamente formados no ensinamento da Igreja, cuja tarefa foi meditar durante mil anos na Palavra de Deus, a fim de ir descobrindo as suas riquezas e dá-las a conhecer o mundo. Procurai, pois, como dirigentes, alcançar uma formação teológica segura, encaminhada a oferecer a vós e aos que dependem de vós em sua direção um conhecimento maduro e completo da Palavra de Deus: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com toda sabedoria” (Col. 3,16).

Em terceiro lugar, como dirigentes da Renovação, deveis ter a iniciativa na criação de laços de confiança e cooperação com os bispos, que na providência de Deus tem a responsabilidade pastoral de guiar todo o Corpo de Cristo, incluída a Renovação Carismática. Mesmo que não compartilhem convosco as formas de oração que descobristes serem tão fecundas, estarão dispostos a acolher com agrado vosso desejo de renovação espiritual, tanto para vós mesmos como para a Igreja, e vos proporcionarão uma orientação segura, que é a tarefa que lhes foi confiada. Deus não pode falhar em sua fidelidade à promessa feita no dia de sua ordenação, quando se implorou dizendo: “Infundi agora sobre esses vossos servos que escolhestes a força que de vós procede: o Espírito de sabedoria que destes a vosso amado Filho Jesus Cristo, e Ele, por sua vez, comunicou aos santos Apóstolos, que estabeleceram a Igreja por diversos lugares como santuário vosso para glória e louvor incessante de vosso nome” (Ritual de ordenação do bispo).

Muitos bispos de todo o mundo, tanto individualmente como por meio de declarações de suas Conferências episcopais, deram impulso e orientação à Renovação Carismática – às vezes também com sua salutar palavra de admoestação – e ajudaram em boa medida a comunidade cristã a compreender melhor sua situação dentro da Igreja. Mediante este exercício de sua responsabilidade pastoral, os bispos nos prestaram a todos um grande serviço em ordem a poder garantir à Renovação um modelo de crescimento e desenvolvimento plenamente aberto a todas as riquezas do amor de Deus em sua Igreja.

4. Neste momento gostaria também de chamar vossa atenção para outro ponto que tem especial importância para esta conferência de dirigentes: refere-se ao papel do sacerdote na Renovação Carismática. Os sacerdotes na Igreja receberam o dom da ordenação como colaboradores no ministério pastoral dos bispos, com quem participam do único e mesmo sacerdócio e ministério de Jesus Cristo, que requer sua absoluta comunhão hierárquica com a ordem dos bispos (cfr. Presbyterorum Ordinis, 7). Como conseqüência, o sacerdote tem uma única e indispensável tarefa a realizar na Renovação Carismática, o mesmo que para toda a comunidade cristã. Sua missão não está em oposição nem é paralela à legítima tarefa do laicado. O sacerdote, pelo vínculo sacramental com o bispo, a quem a ordenação confere uma responsabilidade pastoral para toda a Igreja, contribui para garantir aos Movimentos de renovação espiritual e ao apostolado secular sua integração na vida litúrgica e sacramental da Igreja, sobretudo mediante a participação na Eucaristia; nela pedimos a Deus “que, fortalecidos com o Corpo e o Sangue de seu Filho e cheios de seu Espírito Santo, formemos em Cristo um só Corpo e um só espírito” (Terceiro oração eucarística). O sacerdote participa da própria responsabilidade do bispo para pregar o Evangelho, para o que sua formação teológica deve capacitá-lo de modo especial. Consequentemente, tem a única e indispensável tarefa de garantir uma integração na vida da Igreja que evite a tendência a criar estruturas alternativas ou marginais e que leve a uma participação plena, sobretudo dentro da paróquia, na vida apostólica e sacramental da própria Igreja. O sacerdote, por sua parte, não pode levar a cabo seu serviço em favor da renovação enquanto não adotar uma atitude de acolhida diante da mesma, baseada no desejo de crescer nos dons do Espírito Santo, desejo que compartilha com todo cristão pelo fato de seu batismo.

Vós, pois, sacerdotes e leigos, dirigentes da Renovação, tendes que dar testemunho de vossa mútua união em Cristo e estabelecer como modelo desta colaboração efetiva a exortação do Apóstolo: “Sede solícitos em conservar a unidade do espírito mediante o vínculo da paz. Só há um corpo e um espírito, como também fostes chamados numa mesma esperança, a de vossa vocação” (Ef. 4,34).

5. Finalmente, em vossa experiência de tantos dons do Espírito Santo que são compartilhados também com vossos irmãos e irmãs separados, o que vos pertence é a extraordinária alegria de crescer no desejo da unidade, à qual o Espírito nos leva e num compromisso pela grave tarefa do ecumenismo.

Como se há de realizar esta tarefa? O Concílio Vaticano II no-lo indica: “Antes de mais nada, os católicos, com sincero e atento ânimo, devem considerar tudo aquilo que na própria família católica deve ser renovado e levado a cabo para que a vida dê um testemunho mais fiel e mais claro da doutrina e das normas entregues por Cristo através dos Apóstolos” (Unitatis Redintegratio, 4). Um trabalho que seja de verdade ecumênico não procurará evitar as tarefas difíceis, tais como a convergência doutrinal, lançando-se a crer numa espécie de “Igreja do espírito” autônoma e fora da Igreja visível de Cristo. Um autêntico ecumenismo servirá antes para aumentar nosso desejo de unidade eclesial de todos os cristãos numa fé, a fim de que “o mundo se converta ao Evangelho e que desse modo se salve para a glória de Deus” (Unitatis Redintegratio, 1). Tenhamos a certeza de que, se nos entregamos à obra de uma verdadeira renovação no Espírito, este mesmo Espírito Santo nos dará a estratégia a favor do ecumenismo que converterá em realidade nossa esperança de “só um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e Pai de todos, que está sobre todos, por todos e em todos” (Ef 4,5-6).

6. Caros irmãos e irmãs: A Carta aos Gálatas nos diz que “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção. E, visto que sois filhos, enviou Deus a nossos corações o Espírito de seu Filho, que grita: Abá, pai!” (Gál. 4, 4-6). A esta mulher, Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, sempre obediente ao impulso do Espírito Santo, é a quem quero confiar cheio de confiança vossa importante obra para a renovação da Igreja e na Igreja. No amor de seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, dou-vos de bom grado minha bênção apostólica.

Cássio José: blog 100% Católico

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