21 dezembro 2018

Pe. Lombardi: Igreja deve enfrentar a questão dos abusos em profundidade.


São palavras do padre Federico Lombardi na última edição da revista Civiltà Cattolica em um longo artigo intitulado “Rumo ao encontro dos bispos sobre a proteção dos menores”. Às vezes, adverte o jesuíta, “continua-se a iludir que se trate de um problema principalmente ocidental, ou mesmo americano ou anglófono”, na realidade, “não se deve ignorar desta presença algumas vezes ainda latente a ponto de possibilitar uma futura e dramática erupção”. Por isso, adverte Padre Lombardi, “é preciso olhar a realidade de frente”.

Minimizar a questão dos abusos é caminho errado

Algumas vezes, escreve o jesuíta, “mesmo em ambientes da Igreja ouve-se que é hora de mudar de assunto, que não está certo dar muito peso a este tema, porque pode se tornar opressivo e a questão será engrandecida. Mas este é um caminho errado”. Se a questão “não for enfrentada com profundidade nos seus vários aspectos – prossegue – a Igreja continuará a se encontrar em crise continuamente”, a credibilidade dos sacerdotes ficará “ferida” e, principalmente, “serão prejudicadas a substância da sua missão de anúncio evangélico e o trabalho educativo para a infância e a juventude”.

O caso de Boston fez emergir a questão

Padre Lombardi repercorre a história da questão dos abusos na Igreja, recordando que a primeira grande crise ocorreu depois do ano 2000 nos Estados Unidos e foi enfrentada por São João Paulo II nos seus últimos anos de Pontificado. As “grandes lições” do que ocorreu na arquidiocese de Boston, escreve o jesuíta, são “bem claras, mesmo se foram entendidas e aceitas com dificuldade”. Primeiramente, “a seleção e a formação dos candidatos ao sacerdócio”, devem ser revistas “com cuidado e com rigor”. Assim como é “indefensável” o modo com o qual as autoridades eclesiásticas ocultaram a verdade para evitar escândalos, “negligenciando a gravidade do sofrimento das vítimas”. Também o papel da mídia requer uma resposta de transparência, enfim é necessária uma colaboração com as autoridades civis.

Com Bento XVI a renovação das normas canônicas

Já na parte final do pontificado de João Paulo II, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, comprometeu-se com particular força em enfrentar a questão. Um esforço que se amplificou quando o cardeal alemão foi eleito Papa. Bento XVI decreta uma série de novas “Normas para os delitos mais graves”, seguido em 2011 pela importante “Carta às Conferência Episcopais de todo o Mundo” para ajudar-lhe a preparar as “Diretrizes para o tratamento dos casos de abuso sexual de menores por parte de membros do clero”. Diretrizes que, escreve padre Lombardi, “tornam se assim o documento de referência necessário para a conversão e a renovação da comunidade eclesial a partir da dramática experiência dos abusos”. O compromisso pessoal que Bento XVI assumiu nesta dramática questão, “é evidenciado também pelos seus vários encontros com as vítimas durante suas viagens apostólicas pelo mundo”.

Francisco contra os abusos sexuais, de poder e de consciência

Francisco, destaca padre Lombardi, continua com decisão “o caminho traçado pelo seu Predecessor”. Ele também “se envolveu pessoalmente, encontrando vítimas de abusos sexuais”. Um ato importante, escreve o jesuíta, foi a constituição – poucos meses depois da sua eleição – da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores (dezembro de 2013), presidida pelo cardeal Sean O’Malley. Um organismo que obteve particularmente três resultados, segundo a revista dos jesuítas: o modelo oferecido pelas “Diretrizes”; os cursos de formação para os bispos recém nomeados; e a proposta de um Dia de Oração pelas vítimas de abusos.
Padre Lombardi destacou também a importância de dois documentos aprovados pelo Papa Francisco: o Rescrito de 2014 e o motu proprio de 2016 “Como uma mãe amorosa”. São dois documentos que reforçam a responsabilidade das autoridades eclesiásticas. Foi particularmente significativa a Carta ao Povo de Deus, de 20 de agosto deste ano. Francisco já “não fala somente de abusos sexuais”, mas também “de poder e de consciência”. E pede com força que, para enfrentar este escândalo, todos os fiéis sintam-se co-responsáveis pelo “caminho sinodal da Igreja” e que “toda forma de clericalismo seja decididamente combatida”.

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